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Flamingo-rosado: o visitante que decidiu ficar

Há aves discretas que passam despercebidas na paisagem. E depois há o flamingo-rosado (Phoenicopterus roseus). Pernas intermináveis, penas cor-de-rosa, pescoço elegante em forma de “S” e um andar que mistura pose de pasyserelle com “tenho mesmo de atravessar esta lagoa”. Difícil ignorá-lo.

O flamingo (Phoenicopterus roseus) é uma das aves selvagens mais emblemáticas que podemos observar em Portugal, sobretudo em zonas húmidas, estuários e salinas.

E apesar do seu aspeto quase tropical, esta espécie faz parte da nossa biodiversidade há já algumas décadas, tornando-se cada vez mais comum em várias zonas do país. Contudo, antes de 1980, era raro encontrá-lo.

Quem visita locais como o estuário do Tejo, o Sado ou a Ria Formosa pode ter a sorte de encontrar grupos inteiros destas aves, muitas vezes reunidas em autênticas “assembleias cor-de-rosa”. Em 2017, registou-se um número recorde de flamingos no estuário do Tejo, cerca de 12 mil.

Elegância com engenharia natural

Fisicamente, o flamingo-rosado é impossível de confundir. É considerada uma das aves mais altas da fauna portuguesa, podendo ultrapassar 1,5 metros de altura e atingir uma envergadura de asas próxima de 1,7 metros.

O corpo é maioritariamente branco com tons rosados, mas as asas escondem penas negras que só se revelam totalmente quando levanta voo. As patas compridas, também rosadas, permitem-lhe deslocar-se facilmente em águas pouco profundas.

Já o bico é altamente especializado. À primeira vista, curvo e com a extremidade preta, parece estranho, quase “mal desenhado”. Mas na verdade funciona como um filtro extremamente eficiente.

O flamingo alimenta-se durante o dia, em águas rasas, adotando uma postura bastante peculiar: inclina a cabeça para baixo, vira-a ao contrário e move-a de um lado para o outro. Depois usa a língua áspera e musculada para bombear água e filtrar pequenos organismos. Este sistema de filtragem é tão eficiente que permite que os flamingos aproveitem recursos alimentares que muitas outras aves não conseguem utilizar.

É verdade, parece uma criatura inventada por alguém com muita imaginação… mas a evolução sabe o que faz.

Apesar da sua aparência elegante, o flamingo é também resistente. Pode percorrer grandes distâncias em voo e adaptar-se a ambientes bastante exigentes, com temperaturas extremas. Durante o voo, as pernas ficam esticadas para trás e o pescoço estendido, dando-lhes uma aparência inconfundível e verdadeiramente engenhosa.

Mas afinal, por que são cor-de-rosa?

A resposta está… no menu. A alimentação dos flamingos inclui pequenos crustáceos, algas e outros organismos ricos em pigmentos naturais chamados betacaronetos. Esses pigmentos acumulam-se nas penas, acabando por “tingi-las” gradualmente e dando origem à famosa tonalidade rosa.

Ou seja, o flamingo é literalmente aquilo que come. Quanto mais rica for a dieta nestes pigmentos, mais intensa tende a ser a sua cor.

A cria de flamingo, por exemplo, nasce acinzentada e só ganha a coloração característica ao longo do tempo. Inicialmente, a sua alimentação é baseada numa substância nutritiva semelhante ao leite, segregada pelo papo, com alto teor de gordura e proteína.

Vida em grupo e danças sincronizadas

Os flamingos são aves extremamente sociais e vivem em grandes colónias. Durante a época reprodutora, os rituais de acasalamento tornam-se autênticos espetáculos coletivos. Dezenas ou centenas de aves caminham juntas, movem o pescoço em simultâneo e exibem as asas numa coreografia perfeitamente sincronizada.

Não é exagero dizer que parecem um grupo de dança contemporânea criado pela natureza.

Depois da conquista, os casais constroem ninhos de lama em forma de pequeno cone ou vulcão, elevados acima da água para proteger o ovo da humidade e do calor excessivo. Normalmente é posto apenas um ovo, incubado por ambos os progenitores durante cerca de um mês.

Quando a cria nasce, permanece perto do ninho por alguns dias, antes de se juntar a outras crias em autênticas “creches” de flamingos. Mesmo no meio de centenas de juvenis, os pais conseguem sempre reconhecer a sua cria através das vocalizações.

Novos padrões de comportamento

Durante muitos anos, os flamingos eram vistos em Portugal sobretudo como visitantes de inverno. Passavam pelos nossos estuários e salinas para descansar durante os meses mais frios e alimentar-se antes de seguirem viagem.

Mas recentemente começou a acontecer algo inesperado: surgiram colónias nidificantes em território nacional. Ou seja, deixaram de ser apenas visitantes sazonais e começaram também a reproduzir-se.

Os cientistas ainda não compreendem totalmente a razão desta mudança de comportamento. Alterações climáticas, maior disponibilidade de alimento ou mudanças nos habitats mediterrânicos são algumas das hipóteses consideradas.

Seja qual for a explicação, parece que Portugal deixou de ser apenas uma “paragem de inverno” para passar a ser também um possível lar.

O flamingo depende fortemente da conservação do seu habitat, as zonas húmidas, e estes continuam ameaçados pela poluição, urbanização, perturbação humana e alterações climáticas.

Este tipo de habitat onde vive é fundamental também para a sobrevivência de inúmeras outras espécies e desempenha um papel essencial na retenção de água, controlo de cheias e captura de carbono. Quando protegemos estes ecossistemas, estamos também a proteger o equilíbrio ambiental de que todos dependemos.

Por ora, o flamingo continua a fascinar. Tem algo de improvável: uma ave de aparência exótica, quase extravagante, mas perfeitamente integrada nos nossos estuários e salinas. Uma lembrança de que a biodiversidade portuguesa é muito mais surpreendente e colorida do que muitas vezes imaginamos.

Como protegemos a espécie?

São muitas as espécies de aves migratórias observadas nas propriedades florestais sob gestão da The Navigator Company. O flamingo é um dos exemplares que já foi observado nas charcas da Herdade do Gavião, Aljustrel

A manutenção desta espécie depende da existência de zonas húmidas para se alimentar. Por isso, a conservação das zonas húmidas na empresa passa pela constituição de faixas de proteção a estas massas de água, onde estão condicionadas várias atividades florestais, e pela recuperação dos habitats naturais, que são uma prioridade.

Sabias que…

  • O flamingo-rosado pode dormir em pé sobre apenas uma perna, reduzindo a perda de calor e a tensão muscular graças a um sistema natural de “travamento” das articulações.
  • A sua longevidade em cativeiro pode alcançar até aos 60 anos, tornando-a uma das aves do seu tamanho com maior esperança de vida.
  • O nome latino Phoenicopterus significa “asas roxas”, referindo-se ao brilho avermelhado das penas ao sol.
  • Em algumas culturas antigas, os flamingos eram um símbolo de longevidade e beleza, por isso, as penas eram usadas em adornos e rituais.
  • Há esculturas e pinturas de flamingos em antigos templos egípcios, onde eram associados ao deus Rá.
  • Quando se encontram em cativeiro, as colónias precisam de espelhos e presença social para iniciarem com sucesso o ciclo reprodutivo.
  • Cientistas descobriram que os flamingos preferem sair com os mesmos pequenos grupos de outros flamingos. Grupos de dois, três ou quatro indivíduos, e esses laços sociais duram anos.
  • Flamingo-rosado

    Phoenicopterus roseus

  • Reino

    Animalia

  • Ordem

    Phoenicopteriformes

  • Família

    Phoenicopteridae

  • Género

    Phoenicopterus

  • Habitat

    As concentrações de flamingos podem ser observadas em zonas húmidas tradicionais, como as lagoas abertas e pouco profundas, rias, estuários, lezírias, sapais e salinas. Os habitats, regra geral, possuem grande quantidade de recursos alimentares e encontram-se longe do homem e de predadores.

  • Tamanho

    Dimensões: 1,10 a 1,50 cm Envergadura: 1.40 a 1.60 m

  • Distribuição

    O flamingo-rosado distribui-se localmente por vários continentes, encontrando-se, no Norte, Sul e Este de África, Sudoeste da Ásia, nas Galápagos e também na Europa. Em Portugal, as grandes zonas húmidas do litoral centro e sul, como Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve, são os locais mais favoráveis à sua observação.

Flamingo-rosado em Portugal: curiosidades e habitat

Conheça o flamingo-rosado: curiosidades, habitat, alimentação, reprodução e as razões para a sua recente reprodução nas zonas húmidas portuguesas.