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Rato-de-água: discreto protetor dos ecossistemas ribeirinhos

Quase invisível aos olhos de quem passa, o rato-de-água (Arvicola sapidus) é um dos mais importantes indicadores da saúde das linhas de água em Portugal. Adaptado à vida semiaquática, este pequeno mamífero lembra-nos que proteger a biodiversidade começa muitas vezes nos lugares mais silenciosos.

O rato-de-água é um roedor discreto, mas que desempenha funções essenciais nas margens de rios, ribeiras, charcos e açudes. A sua presença influencia a estrutura da vegetação, contribui para a criação de microhabitats e integra de forma significativa a cadeia alimentar, servindo de presa a lontras e aves de rapina.

É exclusivo da Península Ibérica e do sul de França, sendo conhecido pela sua capacidade de adaptação a diversos tipos de zonas húmidas, desde zonas costeiras baixas até regiões montanhosas de grande altitude. Em Portugal, distribui-se sobretudo ao longo de linhas de água permanentes ou semipermanentes, desde charcos e valas agrícolas até ribeiras e zonas alagadas. A sua presença contribui para a manutenção do mosaico ecológico das margens. Ao alimentar-se de vegetação hidrófila e herbáceas, regula o crescimento de plantas dominantes e favorece a diversidade estrutural.

Adaptações para a vida entre água e terra

Com um corpo robusto, cabeça larga e orelhas redondas e pequenas, uma pelagem densa, uniformemente castanha escura e oleosa, adaptada para a impermeabilização, o rato-de-água está bem equipado para o ambiente húmido onde vive.

As patas posteriores são largas e apresentam ligeiras franjas de pelos que aumentam a eficiência na natação e a cauda, mais curta e espessa do que a de outros roedores, funciona como estabilizador na água. Excelente nadador, move-se com agilidade entre galerias e margens, alimentando-se sobretudo de plantas aquáticas e herbáceas, que ajuda a manter em equilíbrio.

Este pequeno roedor escava túneis que podem ter vários metros de comprimento, com câmaras de repouso e zonas secas acima do nível da água. Estes sistemas subterrâneos ajudam a oxigenar o solo e criam microhabitats explorados por insetos, anfíbios e pequenos répteis.

Comportamento, alimentação e reprodução

A dieta do rato-de-água é essencialmente herbívora, preferindo caules e folhas de plantas como a Typha (ou falsa-espada), Carex, juncos, entre outras. Em períodos de menor disponibilidade alimentar, pode consumir raízes, rizomas e, ocasionalmente, invertebrados, insetos, caranguejos, pequenos peixes, girinos e camarões de água doce.

É territorial e tende a ser mais ativo ao crepúsculo. Faz as tocas e ninhos nas margens de ribeiras, muitas vezes com acesso subaquático. Em terrenos alagadiços prefere fazer os ninhos em tufos de ervas acima do nível de água.

A reprodução ocorre entre a primavera e o início do outono, bastante alongada, mas na Península Ibérica algumas populações reproduzem-se ao longo de todo o ano, apresentando o pico nas estações mais quentes.

Pode ter de três a quatro ninhadas anuais, cada uma com três a oito crias. O período de gestação dura cerca de três semanas e, após o nascimento, as crias atingem a maturidade sexual por volta das cinco semanas de idade.

Um alerta para os ecossistemas ribeirinhos

A elevada dependência de água de qualidade faz com que o rato-de-água responda rapidamente a perturbações ambientais, sendo um excelente indicador da integridade ecológica das zonas húmidas.

Contudo, a destruição de vegetação ripária, a poluição, a alteração dos cursos naturais de água e a expansão de espécies invasoras, como a ratazana-castanha, bem como a predação pelo visão-americano têm vindo alterar e reduzir o habitat desta espécie. O seu declínio é mais do que uma preocupação isolada, é um sinal direto da fragilidade dos ecossistemas de água doce, cada vez mais pressionados.

Proteger para regenerar

A conservação do rato-de-água passa por restaurar margens, controlar espécies invasoras, garantir caudais ecológicos e melhorar a qualidade da água. Estas ações beneficiam a espécie, mas também todo o conjunto de organismos que depende de zonas ribeirinhas saudáveis.

Ao reconhecer o valor do rato-de-água e ao dar-lhe a devida atenção, reforçamos o papel vital dos ecossistemas de água doce na manutenção da biodiversidade. Proteger este pequeno mamífero é proteger a saúde das nossas linhas de água e o equilíbrio natural que delas depende.

Sabia que…

  • Diferenças morfológicas entre subespécies
    Existem pelo menos duas subespécies reconhecidas de Arvicola sapidus, que apresentam variações na cor e tamanho do corpo e da cauda, refletindo adaptações a diferentes ambientes dentro da sua distribuição na Península Ibérica.
  • Interações negativas com espécies associadas à atividade humana
    A presença de roedores mais adaptados ao ambiente humano, como a ratazana comum (Rattus norvegicus), e práticas como o sobrepastoreio podem reduzir localmente as populações de rato-de-água ao competir por recursos e alterar o habitat natural.
  • Rato-de-água

    Arvicola sapidus

  • Classe

    Mamífero

  • Ordem

    Rodentia

  • Família

    Cricetidae

  • Género

    Arvicola

  • Habitat

    Encontra-se em habitats aquáticos, sobretudo nas margens de locais com água relativamente estável, como albufeiras e pequenas barragens, assim como em cursos de água de fraca corrente, como ribeiras, ou em charcos.

  • Distribuição

    Ocorre em Portugal, Espanha e no sul de França. Em Portugal, apresenta populações fragmentadas e com distribuição pouco conhecida.

  • Estado de Conservação

    Segundo o Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal tem um estatuto de “Vulnerável” (VU). Segundo o IUCN é considerado “Quase Ameaçado” (NT).

  • Altura / Comprimento

    Até 22 centímetros de comprimento

  • Longevidade

    A esperança média de vida varia entre 2 e 4 anos.

Como protegemos a espécie?

Apesar de estar presente em diversas áreas protegidas dentro da sua distribuição natural, o rato-de-água continua a mostrar sinais de declínio. Torna-se, por isso, fundamental implementar ações que assegurem a estabilidade e o reforço das suas populações.

A salvaguarda e recuperação do seu habitat são o pilar central da conservação, uma vez que esta espécie depende de zonas com água e vegetação envolvente densa, que lhe garantem abrigo, alimento e condições de reprodução.

Na The Navigator Company, são definidas zonas com interesse para a conservação que são geridas de forma a manter ou melhorar os habitats que proporcionam condições de alimentação, refúgio e reprodução, podendo funcionar como corredores ecológicos para facilitar a dispersão natural das espécies e o intercâmbio genético entre populações.

A proteção e restauro de cursos de água são também uma das medidas de gestão preconizadas pela empresa

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