Biohistórias

Ambiente

Inteligência Artificial: o custo invisível da água

Por detrás da aparente leveza das respostas geradas por inteligência artificial, existe um consumo intensivo de recursos naturais. A água, essencial à vida, é também um dos elementos mais pressionados por esta nova revolução tecnológica.

A Inteligência Artificial (IA) está a transformar a forma como trabalhamos, comunicamos e produzimos conhecimento. No entanto, esta evolução tecnológica tem um lado menos visível: o impacto ambiental associado à sua infraestrutura.

Entre energia e materiais, há um recurso frequentemente ignorado, a água. Essencial para o funcionamento de centros de dados, a água é hoje parte integrante da equação digital, levantando novas questões sobre sustentabilidade.

O papel da água na IA

Os sistemas de IA dependem de centros de dados que processam grandes volumes de informação. Estes espaços concentram milhares de servidores que geram calor constante e necessitam de arrefecimento contínuo para operar com eficiência e segurança.

É aqui que entra a água. Muitos sistemas de refrigeração utilizam circuitos de água para dissipar o calor, recorrendo a torres de arrefecimento ou sistemas evaporativos. Este processo, embora eficaz, implica consumos significativos. Estima-se que a criação de cerca de 100 palavras por um modelo de IA possa consumir o equivalente a uma pequena garrafa de água (500 ml), um número simbólico, mas revelador quando multiplicado por milhões de interações diárias.

Pegada hídrica invisível

Ao contrário de outros consumos mais tangíveis, como o uso doméstico ou agrícola da água, o impacto da IA é difuso e difícil de percecionar. O utilizador final raramente associa uma pesquisa online ou uma resposta automatizada ao consumo de recursos naturais.

No entanto, a expansão da IA está diretamente ligada ao aumento da procura por infraestruturas digitais. Mais centros de dados significam mais necessidade de arrefecimento e, consequentemente, maior pressão sobre os recursos hídricos, especialmente em regiões já vulneráveis à escassez de água.

Sustentabilidade em risco?

A crescente adoção de IA levanta um dilema: como equilibrar inovação tecnológica com responsabilidade ambiental?

Empresas tecnológicas têm vindo a investir em soluções mais eficientes, como sistemas de refrigeração a ar ou reutilização de águas residuais. Ainda assim, estas soluções não eliminam totalmente o problema.

Existe também uma questão geográfica. Muitos centros de dados são instalados em locais com acesso facilitado a energia e água, o que pode agravar desigualdades regionais e pressionar ecossistemas locais.

Repensar o digital

A discussão sobre sustentabilidade digital ainda está numa fase inicial, mas torna-se cada vez mais urgente. Tal como aconteceu com outras indústrias, é necessário medir, comunicar e reduzir o impacto ambiental da IA.

Para além das soluções tecnológicas, existe também um papel para utilizadores e organizações: questionar a necessidade de cada uso, otimizar processos e evitar desperdício digital. A eficiência não depende apenas da tecnologia, mas também das escolhas que cada um de nós faz.

A Inteligência Artificial promete ganhos significativos em várias áreas, da ciência à gestão de recursos naturais. No entanto, o seu desenvolvimento não é neutro. A água, recurso vital e finito, está no centro desta transformação silenciosa.

Tornar visível este impacto é o primeiro passo para uma transição digital verdadeiramente sustentável. Porque no futuro da tecnologia, a inovação terá de caminhar lado a lado com a responsabilidade ambiental.

SABIA QUE…

  • O consumo de água associado à IA e à cloud está a crescer rapidamente. A Microsoft reportou um aumento de cerca de 34% no uso de água entre 2021 e 2022, muito ligado à expansão de centros de dados.
  • Segundo a International Energy Agency, o crescimento da infraestrutura digital está a aumentar significativamente a procura por energia e recursos associados. É necessário redobrar esforços para se atingir eficiência energética.
  • Um relatório do European Commission destaca que o impacto ambiental do digital vai muito além do consumo visível.

Temas: