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Natureza: uma pintora genética ou geométrica?

O mundo inteiro está pintado de mosaicos microscópicos tão distintos como semelhantes. Com efeito, podemos observar este fenómeno nos escombros de uma caverna selvagem, numa tartaruga em travessia atlântica ou até mesmo numa corajosa e resistente plantinha que se permitiu florescer numa racha junto à calçada, com vista premium para a azáfama das rotinas urbanas.

Existe, efetivamente, uma representação estética visual e microscópica que os animais (grupo que integramos) desenvolveram no seu interior e exterior: uma espécie de movimento geométrico universal, presente na génese das nossas células que confere desenvoltura aos corpos, manifestando utilidade, flexibilidade, rigidez e movimento. Esta universalidade deriva do facto de existirem limites físicos, químicos e matemáticos partilhados que ditam a forma mais eficiente para que os seres vivos sobrevivam na Terra e neste universo. Regras iguais e uma origem comum (todas as formas de vida são aparentadas) justificam o tal padrão geométrico universal. Assim, estes padrões geométricos variam e servem para ajudar cada ser a maximizar recursos, conservar energia e potenciar a adaptabilidade ao ambiente em que se insere.

A natureza desenhou, e continua a desenhar, maravilhosos padrões que ajudam todo o reino natural a evoluir de forma prática e funcional desde o início expansivo da vida na Terra. Como bónus, o ser humano, ávido de interpretações fantásticas e padrões mirabolantes, aproveita para se maravilhar enquanto tenta desvendar sempre mais qualquer mistério.

Observemos a imagem acima. Poucos serão capazes de adivinhar o que é. Palpites? É a visão microscópica de cristais ascórbicos, nada mais, nada menos do que a benéfica vitamina C.

Hierarquias que podem tornar-se violentas

Muitos animais vivem em grupos organizados por hierarquias sociais. Em algumas espécies, como galinhas, lobos ou primatas, existe uma ordem que determina quem come primeiro, quem ocupa os melhores locais de descanso e quem tem prioridade no acasalamento.

Nas galinhas domésticas, por exemplo, existe a conhecida “ordem de bicadas”, um sistema em que os indivíduos dominantes podem bicar repetidamente os subordinados para reforçar a sua posição. Em situações de stress ou sobrelotação, esta agressividade pode intensificar-se, levando à perseguição constante de um mesmo indivíduo.

Nos primatas, especialmente em algumas populações de macacos, foram observados comportamentos em que indivíduos de estatuto mais elevado intimidam membros mais frágeis do grupo, impedindo-os de aceder ao alimento ou afastando-os do convívio social. Em certos casos, vários membros podem juntar-se contra um único animal, criando algo semelhante à exclusão social.

Do caos à ordem: o império de moda geométrica

Apesar do inerente caos natural que observamos a olho nu e a céu aberto, o ser humano tem traçado, com enorme sucesso, linhas de lógica capazes de decifrar padrões de sobrevivência e harmonia nas variadas estruturas do reino animal: hierarquias, necessidades alimentares ou até mesmo o efeito dominó com que certas espécies influenciam, inconscientemente, o bem-estar e a sobrevivência de outras tantas no lado oposto do mundo.

Neste sentido, o estudo e a investigação da biodiversidade contribuem para inúmeras descobertas pelas camadas mais recônditas e celulares de cada ser: animal, inseto, planta, micróbio e até mesmo vírus.

Falamos, portanto, do estudo e da observação dos “mosaicos” presentes nas variadas formas de vida, esta sábia equilibrista, que nos une num eterno ciclo de rigidez e flexibilidade.

O resultado? A descoberta de um padrão de mosaicos, presente na base de toda a vida no planeta. Mas atenção, estes padrões de que falamos não englobam elementos como a cor dos animais ou os hexágonos das colmeias. Ou seja, não são uma análise meramente visual. São uma observação que interliga a forma e o conteúdo dos mosaicos para perceber como surgem na constituição física e complementam cada espécie nas respetivas táticas de sobrevivência. Ou seja, a forma reflete a funcionalidade, desde o nível molecular às estruturas macroscópias – tal como pensaria um arquiteto ou designer.

Como nunca se alcança a forma perfeita, o processo é contínuo, sempre a ser moldado pela diversidade de cada espécie e pela sua interação com o ambiente, também ele em constante mutação (habitats, solo ou clima são alguns bons exemplos disso). São estes os dois grandes os motores da evolução, aliados a uma seleção natural que filtra rigorosamente a diversidade que funciona e a que não funciona ou que funciona pior, que se extingue naturalmente após erros que podem ser cometidos vezes sem conta. Podemos afirmar que a evolução é um processo automático, assente em elementos aleatórios, sem consciência e “cego”.

Portanto, cada mosaico serve como estrutura para o bom funcionamento do corpo. E o mais curioso? Os estudos denotam uma semelhança transversal entre diferentes espécies sem qualquer familiaridade genética. Aranhas, peixes ou lagartos? Evoluíram simultânea e distintamente com esta metodologia. Exemplifiquemos com imagens já que as palavras, neste caso, ficam aquém.

Um mosaico vale mais que mil palavras

Um mosaico convida-nos, sedutor e expansivo, a aproximar-nos de perto. Aguça a nossa curiosidade de decifrar com atenção cada detalhe, embebidos nas cores, formas e elementos geométricos.

Inspirado por esta observação minuciosa, começou a ser feito na Universidade de Humboldt, em Berlim, um estudo conduzido pela zoóloga Jane Ciecierska-Holmes, com o objetivo de, finalmente, criar um catálogo que sistematiza os vários estudos isolados feitos anteriormente. Rapidamente percebeu, juntamente com a sua equipa, que o conjunto de padrões constitui uma família estrutural, com uma lógica própria. Criou um sistema de oito variáveis para classificar forma, função e materiais. O que viu foi assombroso: padrões muito semelhantes surgem em animais diferentes, sem relação evolutiva. A sua conclusão foi que a evolução chegou à mesma solução seguindo por caminhos diferentes.

Um ótimo exemplo citado no estudo, é o da aranha-espelho, conhecida pelo nome científico Thwaitesia argentiopunctata. Observadores menos astutos poderão confundir o seu abdómen com um extravagante anel exótico, um elaborado invólucro de bombom ou até mesmo um vistoso puff que ficaria perfeito naquele terceiro esquerdo da casa Batlló do arquiteto Gaudí, em Barcelona.

Mas, para esta aracnídea, as prioridades não se prendem com uma vida cosmopolita: os padrões visuais, conhecidos como guanina refletora, não são decorativos, mas sim essenciais à sobrevivência: expandem, diminuem e alteram-se para confundir potenciais predadores. As vantagens funcionais são claras.

Em seguida, o exemplo de uma investigação feita a um esqueleto de uma raia (Raja clavata). Através de exames de tomografia computorizada, revelou-se que o que inicialmente parecia ser uma granulação óssea é, na verdade, um conjunto de hexágonos e pentágonos de uma ponta à outra da cartilagem.

Noutros casos, em espécies como os quítons (conhecidos como Polyplacophora), observou-se a desenvoltura de placas padronizadas. Já os tubarões, numa linha evolucionária totalmente diferente, desenvolveram cartilagens num padrão estilo tecelagem, mas com semelhanças à raia.

Num ambiente totalmente distanciado dos intrépidos mares, encontramos uma imensidão de mosaicos nos olhares de insetos. Como referimos, seja qual for o tipo de padrão, a lógica é a mesma: um mecanismo de defesa.

Geometria esteticista

Esta ocorrência natural comprova a simbiose entre crescimento biológico e geometria. O objetivo é formar soluções físicas que preservam, o melhor possível, a sobrevivência individual e coletiva de cada espécie.

Mas diferentes mosaicos favorecem diferentes constituições: padrões de seis são comuns em tubarões e raias pela extrema eficácia com que salvaguardam superfícies com curvatura.

Alguns investigadores notam, inclusive, que os mosaicos se integram naturalmente em zonas do corpo que estão a criar novas células, fomentando uma espécie de mobilização dinâmica, ágil e flexível enquanto o próprio corpo expande a nível celular.

E, porventura, no meio encontra-se a virtude: alguns mosaicos têm uma constituição mais dura e localizam-se em zonas que potenciam a proteção, enquanto outras partes favorecem a mobilidade e são, por isso, mais maleáveis ou absolutamente manipuláveis. Ao potenciar a sobrevivência de cada indivíduo, permite-se aumentar a sua descendência na população.

O lagarto-armadillo, de nome científico Ouroborus cataphractus é um exemplo perfeito de padrões que são tão protetores e rígidos quanto flexíveis, promovendo um dinamismo altamente harmonioso de mobilidade e defesa.

Já a aranha-espelho dá a sensação de estar pronta para integrar o mercado de design: conjugaria, achamos, uma carreira estável com uma ocasional participação em galerias.

As suas obras com espelhos alucinantes, transformadores e pioneiros seriam, mais tarde, integradas com o auxílio da biomimética, espelhadas em casas privadas de ávidos colecionadores avant-garde. Mas, por mais que tentemos insistir, segue firme: não sente o chamamento da vida na grande cidade.

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