Biohistórias

Plantas

Plantas, as mestras da ilusão

Astutas, perspicazes, ardilosas. Apresentamos-lhe as plantas de uma forma distinta, sob uma perspetiva que possivelmente desconhecia: como utilizadoras de truques e artimanhas para manipular os animais e atingir os seus objetivos particulares.

Para se reproduzirem, as plantas dependem dos animais para as polinizar e também para dispersar as suas sementes. Na Natureza, não há um pedido formal de ajuda, mas, sim, uma comunicação especial e dissimulada da planta para que o animal a beneficie – quando uma planta é atacada, por exemplo, pode libertar uma substância que chame a si os inimigos naturais dessa espécie. Mas também pode querer camuflar-se, fingindo ser o que não é (como uma pedra, por exemplo), o que afasta os herbívoros. Sejam sinais visuais ou mensagens escondidas em substâncias químicas, muitos são os mecanismos que foram sendo aperfeiçoados por milhares ou mesmo milhões de anos, uma evolução necessária para que a sua espécie sobreviva e continue a reproduzir-se.

Para que uma planta imite (ou evite) um animal, pode emitir um determinado odor, adotar cores e formas, sabores. Cada planta depende de determinados animais e adapta-se às suas características e preferências.

Vamos conhecer algumas plantas que levam esta mimetismo a níveis surpreendentes.

Vincetoxicum nakaianum cheira a… formigas em perigo?

O mimetismo floral deste tipo de acácia nativa do Japão é um caso sério de adaptação. Em 2025, uma investigação publicada pela revista científica Current Biology dava conta desta primeira evidência: a Vincetoxicum nakaianum (da família das apocináceas) é uma espécie de planta cuja flor é capaz de imitar o odor libertado pelas formigas, do género Formica quando atacadas por aranhas. Este perfume atrai as moscas-da-erva, seduzidas pelo que pensam ser alimento, confundindo-as e fazendo com que polinizem as suas flores.

Este é o primeiro e único caso documentado, até agora, deste tipo de mimetismo. O japonês Ko Mochizuki, da Universidade de Tóquio, e a sua equipa perceberam que formigas atacadas por aranhas aliciavam moscas cleptoparasitas (isto é, que roubam alimento ou recursos a outro animal) a vir ao seu encalço. Pretende continuar a analisar outras espécies e procurar outras formas de mimetismo floral que tenham estado, até agora, por descobrir.

Para a ver ao vivo e no seu ambiente natural, deverá viajar até ao Japão, até às montanhas de Honshu ou ao Jardim Botânico de Nikko.

Rafflesia arnoldii e o seu irresistível odor a carne putrefacta

Diretamente das selvas do Bornéu, da Sumatra, da Tailândia e da Indonésia chega uma planta única. Muito se poderá dizer sobre a raflésia: dá a maior flor do mundo, medindo até 110 centímetros de diâmetro e pesando até 11 quilogramas, e não apresenta folhas, caules ou raízes, alimentando-se das raízes de plantas circundantes (sendo, por isso, parasita). Também não faz a fotossíntese. Mas nem só por isto é conhecida, chamando-lhe muitos a “flor-cadáver” pelo aroma peculiar que emite durante as poucas horas ou dias em que se conserva aberta. Ora, através deste cheiro nauseabundo, consegue atrair moscas que polinizam a flor, o seu objetivo maior.

As suas cinco pétalas castanho-avermelhadas e as suas pintas brancas ainda têm outra habilidade impressionante: produzem calor de forma a melhor difundir o aroma pútrido. O seu pólen é, também ele, único – uma substância espessa que se cola e seca nas costas das moscas que o levam mais longe.

Em Portugal, não encontra a planta viva, mas sim uma réplica desta espécie no Museu de Ciência da Universidade de Coimbra.

Erva-abelha (Ophrys apifera): nem tudo o que parece é

Será uma abelha, uma vespa? Não, é a erva-abelha, uma orquídea que tão bem sabe disfarçar-se. Das cores aos pelos que apresenta e até ao odor, esta planta criou um mecanismo perfeito para atrair polinizadores machos da família Apidae, fazendo-se passar por fêmea de alguns insetos e levando ao processo de pseudoacoplamento.

Este truque é conseguido através de um conjunto de antófilos, ou peças florais, que estimulam o processo de polinização: os visitantes que caem no truque da erva-abelha pensam estar a acasalar com uma fêmea da mesma espécie, mas, na verdade, levam o pólen, aglomerado em estruturas apelidadas de polinídias, agarrado ao corpo enquanto visitam outras plantas.

Em Portugal continental, pode ser admirada a Nordeste, no Litoral Oeste e a Sul.

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