Não nos deixemos enganar pelo nome divino deste inseto (mantis significa profeta em grego), que de misericordioso tem pouco. Saiba tudo sobre este pequeno predador solitário, da origem do seu curioso nome ao acasalamento, muitas vezes fatal.
09 de outubro de 2026
O louva-a-deus-comum (Mantis religiosa), assim se chama por motivos puramente anatómicos, apresenta, quando está imóvel, as suas patas dianteiras juntas e dobradas, fazendo lembrar uma pessoa em oração. Mas são as suas presas, outros insetos, que ‘suplicam’ quando são emboscadas pela força dessas mesmas pernas espinhosas, que se dobram implacavelmente para as agarrar. E, por vezes, em pleno voo!
A sua anatomia serve tanto a sua etimologia como a sua salvação, ou melhor, sobrevivência. A cabeça do louva-a-deus-comum roda a 180º, o que lhe permite observar uma área grande sem precisar de movimentar o corpo.
Os olhos são grandes, permitindo detetar e acompanhar facilmente quaisquer movimentos, e o seu poder de camuflagem ajuda-o a passar despercebido a presas e predadores. Já reparou como o seu corpo alongado, verde ou castanho, entre 4 e 6 cm, se confunde com ramos e folhas?

100 dias de solidão
Mais precisamente, um louva-a-deus-comum vive entre 165 (machos) e 196 dias (fêmeas), e tende a fazê-lo de forma solitária, um pouco por todo o território de Portugal continental, em áreas com vegetação, tanto em ambientes naturais como em zonas urbanas.
O seu recolhimento é apenas interrompido para a sua missão de continuação da espécie, que cumpre entre agosto e outubro. Mas o acasalamento não é sinónimo de uma convivência pacífica, já que, embora se alimente principalmente de outros invertebrados, o louva-a-deus-comum pode praticar canibalismo, inclusive durante e depois da cópula. E é por isso que a aproximação do macho à fêmea é feita com muita cautela.
Um estudo analisou a aproximação dos machos às fêmeas de Mantis religiosa em condições laboratoriais e concluiu que os machos estudam o estado de atividade da fêmea para ajustar a velocidade de aproximação: mais rápida quanto maior o grau de atividade (significa que está distraída). Segundo os investigadores, este comportamento permite aos machos reduzir o risco de serem detetados e eventualmente canibalizados.

Caçar, acasalar e orar
Cumprida a missão de acasalamento, tenha ou não o macho sobrevivido ao romance com requintes de malvadez, a fêmea deposita entre 200 e 300 ovos na ooteca, uma estrutura que ela própria constrói para os proteger até à eclosão, entre maio e junho.
As ninfas, que muito cedo apresentam atividade predatória, já têm praticamente o aspeto de um louva-a-deus-comum adulto. No entanto, são muito mais pequenas e não têm asas (saltam, não voam). Crescem através de mudas, um processo de renovação do exoesqueleto que lhes permite atingir a maturidade.
Outubro pode, assim, ser uma excelente altura para observar louva-a-deus-comuns adultos (as asas são um ótimo indicador) na natureza. Procure bem entre a vegetação, mas cuidado com os movimentos bruscos. O zoom do telemóvel pode ser eficaz para conseguir uma boa observação sem se aproximar demasiado.
Para ter a certeza de que o exemplar pertence à espécie Mantis religiosa, procure uma mancha escura com centro amarelo ou branco nas patas anteriores.
Em breve o louva-a-deus-comum chegará ao fim do ciclo da sua vida. Será que, depois de uma vida inteira a ‘rezar’, terá direito ao purgatório?

Sabia que…
- Mantis religiosa é uma das cerca de 2400 espécies de louva-a-deus identificadas pela ciência.
- Algumas culturas consideravam o louva-a-deus um animal com poderes proféticos e sobrenaturais. Árabes e turcos acreditam que o louva-a-deus ‘reza’ sempre com a face apontada para a cidade de Meca. Em algumas regiões de Portugal e França, acreditava-se que o animal tinha papel de guia. Com os seus braços, mostrava o caminho de casa para crianças perdidas.
- O louva-a-deus-comum, apesar de ter asas, é um voador fraco. As fêmeas, por serem maiores, voam pior do que os machos.
- O canibalismo sexual não acontece sempre. Num estudo realizado numa população selvagem de Mantis religiosa, o canibalismo sexual ocorreu em 31% dos acasalamentos observados.


