Biogaleria

biodiversidade

Utricularia gibba: uma bexiga com o bichinho das viagens

Comummente conhecida como bexiga-corcunda ou bexiga-flutuante, a Utricularia gibba é uma pequena planta carnívora aquática pertencente à família das Lentibulariaceae, da ordem Lamiales.

Diminuta, vulnerável, letal. A bexiga-corcunda é uma planta que ocorre em comunidades aquáticas de lagos, charcos temporários, brejos e outras zonas húmidas associadas a solos arenosos, sobretudo em áreas próximas do litoral. Esta predadora pode não ter esse aspeto, mas é de uma rapidez estonteante a aspirar as suas “vítimas”. Pode viver fixada ao substrato em águas pouco profundas ou flutuar livremente na coluna de água.

Trata-se de uma espécie subcosmopolita, estando presente em todos os continentes, com exceção da Antártida, apresentando uma distribuição natural nas regiões da América do Norte e Central, Caraíbas, Mediterrâneo Ocidental, África do Sul e sul da Índia. Não obstante a sua ampla presença, é considerada uma espécie invasora em várias regiões do planeta, como, por exemplo, no Havai, na Austrália, no Japão, na Nova Zelândia, em Singapura, na Sérvia, na Hungria e no Reino Unido.

Por cá, em território continental, a Utricularia gibba é uma espécie autóctone, mas está ausente dos arquipélagos dos Açores e da Madeira.

Uma planta carnívora que não hesita em puxar o gatilho

A bexiga-flutuante tende a formar densos tapetes de estolhos finos e ramificados, que podem ultrapassar os 20 centímetros de comprimento. A sua morfologia é bastante reduzida, apresentando estruturas semelhantes a folhas ao longo dos estolhos, onde se desenvolvem pequenas armadilhas vesiculares ovoides, com cerca de 1 a 2,5 milímetros de comprimento – estas armadilhas constituem a característica mais distintiva da espécie.

Dotadas de apêndices sensoriais que funcionam como gatilhos, capturam pequenos organismos aquáticos por sucção, que são, posteriormente, digeridos. Esta estratégia carnívora constitui uma adaptação a ambientes pobres em nutrientes disponíveis, particularmente em azoto e fósforo.

As suas inflorescências são eretas e podem elevar-se até cerca de 20 centímetros acima da superfície da água, embora, em algumas situações, se desenvolvam submersas, produzindo flores cleistogâmicas (isto é, flores pouco evidentes e fechadas, em que se verifica autogamia, um tipo de reprodução em que plantas  com flores hermafroditas (dois sexos, dois tipos de gametas) se autofecundam.. Cada inflorescência apresenta, geralmente, duas a seis flores amarelas, por vezes marcadas por nervuras castanho-avermelhadas, com uma corola dividida em dois lábios e um esporão estreito e curvo.

As flores podem variar entre 0,8 e 1,5 centímetros de tamanho e surgem ao longo de todo o ano, sempre que as condições ambientais se revelem favoráveis.

Para além das suas idiossincrasias morfológicas e ecológicas, a Utricularia gibba destaca-se, ainda, pelo seu genoma extraordinariamente compacto. Apesar de possuir um número de genes semelhante ao de muitas outras plantas, o seu genoma contém apenas cerca de 3% de ADN não codificante, constituindo, assim, um exemplo singular de organização genética no reino vegetal.

Uma bexiga “Vulnerável”

Segundo a Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental, a bexiga-corcunda encontra-se classificada na categoria “Vulnerável” (VU), de acordo com os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Embora seja uma espécie amplamente distribuída à escala global, em Portugal verificou-se uma redução significativa da sua área de ocorrência, sobretudo devido ao desaparecimento dos diversos núcleos populacionais a norte do rio Tejo.

Atualmente, são conhecidas apenas sete localizações, registando-se um declínio continuado da sua distribuição, da dimensão das populações e da qualidade do habitat.

As principais ameaças à sua conservação estão diretamente associadas à alteração dos regimes hidrológicos, resultante da intensificação das atividades agrícolas e florestais, bem como do aumento da frequência e duração de secas extremas relacionadas com as alterações climáticas. Face à vulnerabilidade dos habitats higrófilos e aquáticos de baixa altitude onde ocorre, torna-se fundamental implementar medidas de conservação que incluam o restauro e a gestão destes ecossistemas, a monitorização regular das populações conhecidas e o reforço dos esforços de prospeção em áreas da sua distribuição histórica.

Sabias que…

  • Apesar de não possuir músculos nem sistema nervoso, a Utricularia gibba utiliza pequenas armadilhas em forma de bexiga que funcionam como verdadeiros aspiradores microscópicos. Isto porque, ao serem ativadas pelo contacto de uma presa com os pelos sensoriais, abrem-se e sugam a vítima em apenas alguns milissegundos, tornando o género Utricularia um dos mais rápidos predadores do reino vegetal.
  • A bexiga-corcunda possui um dos genomas mais compactos conhecidos entre as plantas com flor. Curiosamente, apesar de ter um número de genes comparável ao de muitas outras plantas, apenas cerca de 3% do seu ADN é não codificante, fazendo dela um caso de estudo fascinante sobre a organização e evolução dos genomas vegetais.

Leia também:

  • Apesar de não possuir músculos nem sistema nervoso, a Utricularia gibba utiliza pequenas armadilhas em forma de bexiga que funcionam como verdadeiros aspiradores microscópicos. Isto porque, ao serem ativadas pelo contacto de uma presa com os pelos sensoriais, abrem-se e sugam a vítima em apenas alguns milissegundos, tornando o género Utricularia um dos mais rápidos predadores do reino vegetal.
  • A bexiga-corcunda possui um dos genomas mais compactos conhecidos entre as plantas com flor. Curiosamente, apesar de ter um número de genes comparável ao de muitas outras plantas, apenas cerca de 3% do seu ADN é não codificante, fazendo dela um caso de estudo fascinante sobre a organização e evolução dos genomas vegetais.
  • Bexiga-corcunda

    Utricularia gibba

  • Planta

  • Género

    Utricularia

  • Família

    Lentibulariaceae

  • HABITAT

    Ocorre em lagos, charcos temporários, brejos e outras zonas húmidas associadas a solos arenosos, sobretudo em áreas próximas do litoral. Pode viver fixada ao substrato em águas pouco profundas ou flutuar livremente na coluna de água.

  • DISTRIBUIÇÃO

    Trata-se de uma espécie subcosmopolita, presente em todos os continentes, com exceção da Antártida. A sua distribuição natural inclui as regiões da América do Norte e Central, Caraíbas, Mediterrâneo Ocidental, África do Sul e sul da Índia. Em Portugal, é uma espécie autóctone do território continental, estando, contudo, ausente dos arquipélagos dos Açores e da Madeira.

  • ESTADO DE CONSERVAÇÃO

    “Vulnerável” (VU), segundo a Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental e os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

  • ALTURA / COMPRIMENTO

    Os seus estolhos finos e ramificados podem ultrapassar os 20 centímetros de comprimento, enquanto as inflorescências podem elevar-se até cerca de 20 centímetros acima da superfície da água.

  • LONGEVIDADE

    Perene.

Como protegemos a espécie?

Nas propriedades geridas pela The Navigator Company, esta espécie beneficia das medidas de proteção e restauro de cursos de água e outros corpos de água, sendo definidas zonas com interesse para a conservação que são geridas de forma a manter ou melhorar os habitats que proporcionam condições ideais para a sobrevivência desta planta.

Temas: