A sobrevivência do mais apto
São três as grandes ameaças ao carvalho-de-monchique: as alterações climáticas, mais precisamente a seca, os fogos e as mudanças no uso do solo, motivadas por interesses económicos que privilegiam a rentabilidade de outras espécies em detrimento deste carvalho autóctone e extremamente ameaçado.
“Todos estes fatores levaram a que a espécie se refugiasse em locais onde ainda existe alguma precipitação oculta, especialmente sob a forma de nevoeiros no final da estação quente, em vales encaixados das serras do Sudoeste Alentejano e Algarve, ou nas linhas de água pelo acesso ao lençol freático, que compensa a diminuição das precipitações anuais”, explica Carlos Vila-Viçosa.
No território português, a presença desta árvore está, por isso, hoje limitada à serra que lhe dá o nome e aos vales adjacentes da bacia do rio Mira, que desagua em Vila Nova de Milfontes, ribeiras de Aljezur e Ribeira do Seixe.
Por perda de adequabilidade às condições climáticas actuais, o carvalho-de-monchique hibrida (cruza) com o carvalho-cerquinho (Quercus faginea Lam.), espécie também nativa que integra o mesmo habitat e com maior resistência à diminuição das precipitações. Neste sentido, a hibridação funciona como uma ameaça, mas também como uma estratégia de “sobrevivência” da genética do carvalho-de-monchique através do seu híbrido natural, o carvalho-de-tlemcen (Quercus ×tlemcenensis Trab.) que acaba por dominar algumas das poucas massas florestais ainda existentes nas serras Sudoeste Português e Espanhol (Aracena, Pedroches e Alcornocales).
Aliás, o elevado grau de hibridação das populações foi uma das duas descobertas que mais surpreenderam Carlos Vila-Viçosa. A outra foi que os indivíduos mais puros (e mais ameaçados) são os que habitam mais perto da vila de Monchique, e não em Espanha (Algeciras-Cádiz), como se avaliou por dados moleculares de menor poder de resolução anteriormente utilizados.
A ciência da multiplicação
Há apenas uma forma de contrariar, ou melhor, contrabalançar o crescimento das populações híbridas – aumentar ao máximo os indivíduos puros. Para multiplicá-los somaram-se técnicas de reprodução vegetativa – in vitro, enxertia e estacaria – à germinação através da recolha de bolotas de árvores-mãe “puras”, apoiadas pelo Jardim Botânico do Porto e concretizadas pelos Viveiros Aliança e o CBPBI.
O resultado foi a plantação de cerca de 500 carvalhos-de-Monchique só este ano, que se juntam às que têm sido plantadas desde 2019 em Águas Alves, Monchique, propriedade da The Navigator Company, empenhada em implementar projetos de recuperação de espécies ameaçadas, como parte da sua estratégia de biodiversidade.
De ressaltar que além da plantação, a preocupação em recuperar o seu habitat é também constante. Por isto mesmo, foram igualmente realizadas ações de promoção da regeneração natural para a melhora do estado de conservação dos habitats presentes, entre os quais o Habitat 9240 Carvalhais ibéricos de Quercus faginea e Quercus canariensis.
Por isso, além destas árvores, plantaram-se ainda cem espécimes de Myrica faya, como outro elemento dos bosques lauróides relíquia do Sudoeste português, numa abordagem holística, a todo o ecossistema.