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Boas notícias para o carvalho-de-monchique e para todos nós

Certamente já ouviu falar do lince-ibérico… E do carvalho-de-monchique? Em comum, têm o facto de serem espécies endémicas seriamente ameaçadas em Portugal, mas diferem muitíssimo no nível da atenção mediática que recebem.

Salvar árvores pode ainda não ser tão apelativo quanto o resgate de animais silvestres, mas há um projeto que está a fazer a diferença na preservação da floresta endémica portuguesa, em particular do carvalho-de-monchique. Em breve, prevê-se que esta árvore possa melhorar o seu estatuto de conservação na Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental, passando de ‘criticamente em perigo’ para ‘em perigo’. O que está longe de ser irrelevante.

A Quercus canariensis Willd. é, assim, um dos estandartes da iniciativa “Melhoramento genético, produção e conservação de materiais florestais de reprodução”, que tem como objetivo aumentar a resiliência da floresta portuguesa aos efeitos das alterações climáticas.

O projeto, que apresenta agora as primeiras conclusões, está sob a coordenação conjunta do RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel, e do INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, contando com o apoio do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência).

Manual de boas práticas

O entusiasmo de Carlos Vila-Viçosa, investigador doutorado do BIOPOLIS-CIBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos) e consultor especialista neste projeto, é sustentado por dados recolhidos, inéditos em Portugal. “A ideia é que este projeto sirva de modelo e seja replicado noutras espécies”, explica. “Ter populações bem caracterizadas molecularmente, e consequentemente criar viveiros de plantas geneticamente certificadas, de forma a compreender o que plantar e onde, é algo que ainda está por fazer no nosso país e esta iniciativa pode dar um pontapé de saída importante.”

Para o sucesso contribuiu uma abordagem multidisciplinar, também ela inédita, que junta taxonomia (ciência que classifica os seres vivos), caracterização genética, ecologia de campo, com recurso a ferramentas de deteção remota da terra (satélites) e horticultura. Isto permitiu, por um lado, identificar e qualificar as populações e caracterizar estes bosques relíquia (redutos de floresta primitiva que conservam uma biodiversidade única e impossível de recuperar de forma autónoma, em caso de destruição) e, por outro, reforçar e restaurar geneticamente as populações.

A sobrevivência do mais apto

São três as grandes ameaças ao carvalho-de-monchique: as alterações climáticas, mais precisamente a seca, os fogos e as mudanças no uso do solo, motivadas por interesses económicos que privilegiam a rentabilidade de outras espécies em detrimento deste carvalho autóctone e extremamente ameaçado.

“Todos estes fatores levaram a que a espécie se refugiasse em locais onde ainda existe alguma precipitação oculta, especialmente sob a forma de nevoeiros no final da estação quente, em vales encaixados das serras do Sudoeste Alentejano e Algarve, ou nas linhas de água pelo acesso ao lençol freático, que compensa a diminuição das precipitações anuais”, explica Carlos Vila-Viçosa.

No território português, a presença desta árvore está, por isso, hoje limitada à serra que lhe dá o nome e aos vales adjacentes da bacia do rio Mira, que desagua em Vila Nova de Milfontes, ribeiras de Aljezur e Ribeira do Seixe.

Por perda de adequabilidade às condições climáticas actuais, o carvalho-de-monchique hibrida (cruza) com o carvalho-cerquinho (Quercus faginea Lam.), espécie também nativa que integra o mesmo habitat e com maior resistência à diminuição das precipitações. Neste sentido, a hibridação funciona como uma ameaça, mas também como uma estratégia de “sobrevivência” da genética do carvalho-de-monchique através do seu híbrido natural, o carvalho-de-tlemcen (Quercus ×tlemcenensis Trab.) que acaba por dominar algumas das poucas massas florestais ainda existentes nas serras Sudoeste Português e Espanhol (Aracena, Pedroches e Alcornocales).

Aliás, o elevado grau de hibridação das populações foi uma das duas descobertas que mais surpreenderam Carlos Vila-Viçosa. A outra foi que os indivíduos mais puros (e mais ameaçados) são os que habitam mais perto da vila de Monchique, e não em Espanha (Algeciras-Cádiz), como se avaliou por dados moleculares de menor poder de resolução anteriormente utilizados.

A ciência da multiplicação

Há apenas uma forma de contrariar, ou melhor, contrabalançar o crescimento das populações híbridas – aumentar ao máximo os indivíduos puros. Para multiplicá-los somaram-se técnicas de reprodução vegetativa – in vitro, enxertia e estacaria – à germinação através da recolha de bolotas de árvores-mãe “puras”, apoiadas pelo Jardim Botânico do Porto e concretizadas pelos Viveiros Aliança e o CBPBI.

O resultado foi a plantação de cerca de 500 carvalhos-de-Monchique só este ano, que se juntam às que têm sido plantadas desde 2019 em Águas Alves, Monchique, propriedade da The Navigator Company, empenhada em implementar projetos de recuperação de espécies ameaçadas, como parte da sua estratégia de biodiversidade.

De ressaltar que além da plantação, a preocupação em recuperar o seu habitat é também constante. Por isto mesmo, foram igualmente realizadas ações de promoção da regeneração natural para a melhora do estado de conservação dos habitats presentes, entre os quais o Habitat 9240 Carvalhais ibéricos de Quercus faginea e Quercus canariensis.

Por isso, além destas árvores, plantaram-se ainda cem espécimes de Myrica faya, como outro elemento dos bosques lauróides relíquia do Sudoeste português, numa abordagem holística, a todo o ecossistema.

Uma floresta modelo

Águas Alves acaba por funcionar como um espaço de gestão e monitorização e como uma floresta modelo para a conservação, o que é também inédito em Portugal. “Muitas vezes atiram-se árvores para a natureza e espera-se que aconteça alguma coisa sem acompanhamento posterior”, explica Carlos Vila-Viçosa, “isso é irrealista”.

Esta ideia de continuidade é reforçada por Nuno Rico, responsável pela Conservação e Biodiversidade da The Navigator Company, e a ela não é alheia o envolvimento da comunidade, entre população, proprietários e entidades públicas e privadas. Nuno Rico dá o exemplo das autarquias, “interessadas em pôr em prática projetos concretos”.

Águas Alves não é, no entanto, a única morada prevista para estas árvores: a ideia é distribuí-las por jardins, arboretos universitários e coleções privadas, especialmente no Sudoeste, para aumentar a presença da espécie até Odemira ou mesmo Grândola, mas também por outras propriedades geridas pela Navigator naquela zona e noutras, já que os modelos de projeção ecológica apontam para que, no futuro, seja o noroeste português o sítio ótimo para o carvalho-de-monchique.

Por enquanto, ainda pode encontrá-lo na pitoresca vila algarvia. Da próxima vez que visitar Monchique, não se esqueça de ir conhecê-lo ao vivo. Afinal, é mais fácil lutar por aquilo que conhecemos melhor.

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