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Este é o melhor presente que vai receber das renas

Todos os anos, neste dia, as renas são celebradas como autênticas heroínas, na difícil tarefa de ajudar o Pai Natal a distribuir presentes. Na noite mais mágica do ano, elas fazem parte do nosso imaginário e há quem garanta ter avistado Rudolfo – a rena de nariz vermelho – a sobrevoar a sua casa.

Mas lendas à parte, a verdade é que as renas poderão vir a ser reconhecidas pelos seus atos heroicos – em nada relacionados com o Natal. Está a ser estudado o papel determinante que estes animais herbívoros podem ter na preservação dos ecossistemas da Lapónia, casa oficial do Pai Natal e as suas ajudantes. E esse pode ser o melhor presente que alguma vez iremos receber das renas.

Situada no Círculo Polar Ártico, a Lapónia abrange parte da Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia, e é reconhecida mundialmente pelas suas tundras, de vegetação rasteira; florestas boreais, com majestosos pinheiros; montanhas cobertas de neve e rios cristalinos. Mas a sua paisagem estrondosa e respetiva biodiversidade encontra-se ameaçada pelo aquecimento global, quatro vezes mais acelerado no Ártico do que no resto do mundo, devido a um efeito específico da região designado de “amplificação ártica”, segundo os cientistas.

A era do (de)gelo

Com o aumento das temperaturas, o permafrost, camada do subsolo permanentemente congelada, derrete e liberta carbono e metano, aumentando o efeito de estufa. A neve dá lugar à chuva que gela mais facilmente na superfície e impede as renas de chegarem às ervas e líquenes dos quais se alimentam.

Esta falta de alimento natural prejudica uma das principais atividades económicas do povo Sámi, único povo indígena da Europa, que vê o custo de produção do pastoreio aumentar devido ao preço das rações. Ou seja, as alterações  climáticas são nefastas para o habitat natural das renas, as quais, por sua vez, são indispensáveis para mitigar os efeitos dessas mesmas alterações.

Ainda que o aquecimento global não seja o único fator responsável pela degradação do habitat daqueles animais: a construção de ferrovias ou a desflorestação causada pela exploração de madeira também têm vindo a afetar todo o ecossistema, num equilíbrio difícil entre desenvolvimento económico e preservação cultural e ambiental.

Na Finlândia, foi criado o Conselho Climático Sámi, que integra ciência e conhecimento tradicional, para desenvolver estratégias de adaptação às alterações  climáticas, protegendo o ambiente, mas também o modo de vida indígena, cuja saúde física e mental já se ressente.

Salvar o reino das renas

Mas como é que as renas ajudam no equilíbrio térmico desta região? É o que os investigadores estão a tentar perceber, sendo que já existem pesquisas que confirmam no terreno esta teoria. Por exemplo, um estudo publicado, na então revista científica BMC Ecology, demonstrou existir relação entre a presença de herbívoros e a neutralização dos efeitos do aquecimento global na vegetação ártica.

Ao que parece, as renas comem arbustos, que crescem descontroladamente com o aumento da temperatura e são responsáveis por uma maior absorção de calor. Além disso, ao simplesmente caminharem sobre a neve, estes animais permitem que o frio penetre mais profundamente no solo e mantenha o permafrost congelado.

Salvar as renas é, assim, uma responsabilidade de todos com benefícios globais. Para as renas, para o povo Sámi, para o nosso planeta, e, claro, para o Pai Natal. O que seria do generoso velhote barbudo – e de nós – sem as suas simpáticas assistentes?

Sabia que…

  • Apesar do clima extremo, a floresta boreal abriga grande variedade de fauna: alces, renas, bisontes, ursos, lobos, raposas, castores, aves migratórias.
  • A floresta boreal armazena cerca de um terço do carbono terrestre, sendo crucial para o equilíbrio climático.
  • Em agosto deste ano, o Instituto meteorológico finlandês observou um período de 22 dias com temperaturas acima dos 30°C na Finlândia, a onda de calor mais longa registada desde 1961 – quando se iniciaram as medições – e que levou à morte de várias renas.

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