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Florestas plantadas com raízes locais: o papel da biodiversidade endémica

A presença de espécies endémicas em florestas plantadas é muito mais do que uma questão de conservação: é um investimento na resiliência dos ecossistemas e na sustentabilidade económica do território.

As florestas plantadas ocupam uma parcela significativa do território português e são fundamentais para a produção de madeira, cortiça, resina ou mel. Contudo, quando compostas por poucas espécies, tornam-se mais vulneráveis a pragas, incêndios e fenómenos climáticos extremos. A integração de biodiversidade endémica, ou seja, espécies nativas e exclusivas de uma região, é uma estratégia essencial para aumentar a resiliência ecológica e produtiva destes ecossistemas.

Resiliência ecológica: um escudo natural

A diversidade endémica introduz variabilidade genética e estrutural, dificultando a propagação de pragas e doenças. Esta diversidade faz com que, nas florestas mistas, a continuidade seja interrompida por barreiras ecológicas e químicas. Estudos europeus confirmam que a diversidade de espécies reduz significativamente o impacto de agentes bióticos nocivos.

Também face ao fogo, a presença de espécies autóctones, como o sobreiro (Quercus suber), confere-lhes uma certa resiliência natural, permitindo a passagem do fogo, mas a árvore consegue, na maior parte dos casos, sobreviver. A sua casca de cortiça espessa e capacidade de rebrotar após um incêndio permitem uma recuperação mais rápida e estável da floresta.

Perante eventos climáticos extremos, a diversidade endémica distribui o risco. Espécies com tolerâncias distintas à seca, ao calor ou à inundação asseguram a continuidade da cobertura vegetal. Além disso, solos biodiversos, sustentados por microrganismos e fungos micorrízicos nativos, retêm melhor a água e os nutrientes, reforçando a estabilidade ecológica.

Mosaicos de vida: polinizadores e regeneração natural

As espécies endémicas, em conjunto com a restante diversidade florística e faunística, incluindo as florestas plantadas, como os eucaliptos, contribuem para a formação de mosaicos ecológicos com diferentes alturas, densidades e microclimas, que atraem polinizadores e dispersores de sementes. Estes organismos são essenciais para a regeneração natural e para a manutenção da diversidade genética das florestas.

Um estudo sobre Echium candicans, planta endémica da Madeira, demonstrou que estas suportam redes de polinizadores estáveis e especializadas, garantindo ciclos reprodutivos equilibrados.

A presença de aves, morcegos e insetos dispersores auxilia ainda a colonização natural de clareiras, ampliando a heterogeneidade e a resiliência da paisagem florestal.

Produção e serviços ecológicos de mãos dadas

A biodiversidade endémica permite conciliar a produção económica com a conservação ecológica, embora nem sempre seja possível faze-lo  no mesmo local ou em simultâneo. No entanto, espécies autóctones como o sobreiro ou a azinheira produzem cortiça e bolotas, ao mesmo tempo que estabilizam o solo e melhoram o microclima. Plantas melíferas em florestas mistas ajudam a prolongar o período de floração, favorecendo a apicultura local e originando produtos de elevada qualidade.

Estes sistemas mistos reduzem a necessidade de fertilizantes e pesticidas, reforçando a sustentabilidade económica e ambiental da produção florestal.

Experiências e boas práticas em Portugal: o caso da The Navigator Company

Em Portugal, a integração da biodiversidade endémica nas florestas plantadas tem ganho expressão através de projetos de gestão responsável e restauro ecológico. A The Navigator Company é um exemplo de referência neste caminho, demonstrando que é possível unir produtividade, conservação e ciência aplicada.

A empresa subscreveu o act4nature Portugal, iniciativa do Business Council for Sustainable Development (BCSD), assumindo compromissos concretos na proteção e promoção da biodiversidade.

Nos seus territórios florestais, a Navigator identifica e monitoriza centenas de espécies de flora e fauna, incluindo endémicas e protegidas, e ajusta as operações às épocas de nidificação e regeneração natural.

Os Viveiros Aliança, com capacidade anual de cerca de 12 milhões de plantas, produzem não só eucaliptos mas também árvores e arbustos autóctones, destinados a ações de reflorestação e restauro ecológico, tanto em propriedades próprias como de parceiros.

Entre os projetos emblemáticos, destaca-se o Zambujo reCover, em Idanha-a-Nova, junto ao Parque Natural do Tejo Internacional, que envolve a recuperação de 110 hectares através da plantação de espécies autóctones adaptadas ao solo e ao clima locais.

Na Serra da Malcata, a Navigator promove o restauro de 205 hectares, reduzindo a densidade de resinosas e favorecendo a regeneração natural de espécies nativas, sob parecer do ICNF e em áreas da Rede Natura 2000.

A biodiversidade endémica é um ativo estratégico da floresta portuguesa. Ao integrar espécies locais nas plantações, reforça-se a resistência a pragas, incêndios e alterações climáticas, melhora-se a regeneração natural e conciliam-se valores económicos e ecológicos.

Projetos como os da The Navigator Company demonstram que a sustentabilidade florestal é possível quando a produção e a biodiversidade caminham lado a lado, transformando as florestas plantadas em ecossistemas vivos, resilientes e duradouros.

Sabia que…

  • As florestas com mais espécies são mais resilientes e recuperam melhor de pragas e incêndios. Estudos demonstram que plantações com maior diversidade de espécies sofrem menos perdas por pragas e recuperam mais depressa após os incêndios, devido à variedade de respostas fisiológicas e químicas das plantas.

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