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Bela-dama: a borboleta maratonista dos ares

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Quem diria que esta pequena borboleta, de aspeto delicado, é, na verdade, uma voadora ultramaratonista dos ares, com segredos na asa? A bela-dama (Vanessa cardui) é uma espécie habitualmente encontrada em quase todo o mundo. Voa milhares de quilómetros de uma só vez, sem descansar, sendo, por isso, considerada uma das maiores migradoras do reino animal. Digna de um Guiness World Records!

24 de setembro de 2026

Vanessa cardui, ou bela-dama: uma borboleta que nasceu com nome de estrela de cinema, mas que é, na realidade, muito mais do que as suas asas bonitas. Pelas cores que exibe, até pode confundir-se com outras borboletas de tons semelhantes, mas observe-a bem e repare no padrão que a torna reconhecível: as asas anteriores exibem um fundo castanho alaranjado, salpicado de manchas escuras, com uma zona negra próxima da ponta onde se destacam pequenas pintas brancas.

Na face inferior das asas posteriores distinguem-se quatro pequenos ocelos (manchas circulares que imitam olhos). As antenas apresentam um padrão listado, alternando entre preto e branco, um pormenor útil para a identificação no terreno.

A envergadura ronda os sete centímetros nos exemplares maiores, sendo as fêmeas geralmente maiores do que os machos, o chamado dimorfismo sexual. O corpo é acastanhado e revestido de pequenas escamas, como acontece em todas as borboletas.

A espécie pertence à ordem Lepidoptera (o grupo de insetos que reúne todas as borboletas e traças) e à família Nymphalidae (uma família que inclui muitas das borboletas mais coloridas e conhecidas na Europa).

Presente em quase todo o mundo

Poucos insetos conseguem gabar-se de uma distribuição tão vasta como a da bela-dama. A espécie ocorre em quase todos os continentes, estando ausente apenas da Antártida e, de forma permanente, da América do Sul. Esta última exceção tornou-se ainda mais interessante em 2024, quando um estudo científico confirmou que alguns exemplares tinham conseguido atravessar o Oceano Atlântico e chegar às costas sul-americanas, sem que isso signifique que a espécie se tenha instalado ali de forma permanente. Mas falaremos dessa viagem em seguida.

Em Portugal, é uma das borboletas mais comuns e pode observar-se ao longo de quase todo o ano, com picos de abundância na primavera e no final do verão, voando tipicamente entre março e outubro.

Está presente em todo o território, incluindo os arquipélagos dos Açores e da Madeira, e não é exigente quanto ao habitat: aparece em prados, orlas de bosques, terrenos ruderais (áreas alteradas pela atividade humana, como bermas de estradas ou terrenos abandonados), dunas costeiras e até em jardins urbanos, podendo ser encontrada até aos dois mil metros de altitude.

Esta capacidade de se adaptar a ambientes tão diferentes faz da bela-dama uma espécie generalista, ou seja, capaz de viver e reproduzir-se em condições variadas, ao contrário de espécies mais especializadas que dependem de um único tipo de habitat.

De lagarta espinhosa a borboleta alada

O ciclo de vida da bela-dama começa dentro de ovos de cor verde-pálida, marcados por estrias verticais, colocados um a um em plantas hospedeiras (as plantas de que a lagarta se alimenta assim que nasce). Cada fêmea pode pôr cerca de 500 ovos ao longo da vida, distribuídos por diferentes plantas, para aumentar as hipóteses de sobrevivência da descendência.

As lagartas que nascem são espinhosas, de cor entre o preto e o castanho, com uma faixa lateral amarelada, e alimentam-se sobretudo de plantas da família das Asteráceas (a família botânica que inclui os cardos e muitas outras plantas de flor composta), em particular dos géneros Carduus, Cirsium e Onopordum, conhecidos genericamente como cardos. Apesar desta preferência, a lagarta da bela-dama é bastante versátil e já foi registada a alimentar-se de mais de uma centena de espécies vegetais diferentes, incluindo urtigas e tremoceiros.

Depois de passar pela fase de crisálida (o invólucro acastanhado dentro do qual ocorre a metamorfose), emerge o adulto, que atinge a maturidade sexual ao fim de cerca de uma semana. Consoante a temperatura e a disponibilidade de alimento, o desenvolvimento completo, do ovo ao adulto, pode demorar entre um mês, em regiões mais quentes, e mais de dois meses, em climas mais frios. Em Portugal, a espécie completa normalmente duas a três gerações por ano, embora em condições de laboratório, com temperatura e alimento controlados, já tenham sido registadas até oito gerações sucessivas.

Uma particularidade da bela-dama é não possuir uma verdadeira diapausa invernal (uma espécie de pausa fisiológica que permite a muitos insetos sobreviver ao frio em estado de letargia). É por isso que, em vez de hibernar como fazem outras borboletas europeias, prefere partir para sul quando as temperaturas descem. Nas regiões mais quentes do país, como o Algarve, foi, no entanto, observada uma diapausa estival, ou seja, um período de repouso no desenvolvimento desencadeado pelo calor extremo do verão, e não pelo frio.

O segredo da bela-dama está no pólen

Durante muito tempo, pensou-se que a bela-dama europeia simplesmente desaparecia no final do verão, sem se saber ao certo para onde ia. A resposta começou a ser desvendada em 2018, através de um estudo publicado na revista científica Biology Letters, assinado por investigadores ligados ao Instituto de Biologia Evolutiva, um centro de investigação de Barcelona.

A equipa recolheu borboletas em Marrocos, na Andaluzia, na Catalunha, em Creta, no Egito e em Israel e analisou os isótopos de hidrogénio presentes nas suas asas. Trata-se de variantes do átomo de hidrogénio que funcionam como uma espécie de assinatura química, capaz de revelar em que região a lagarta se alimentou e cresceu antes da metamorfose. Os resultados mostraram que a maior parte das bela-damas europeias atravessa o deserto do Saara, uma travessia de 1.500 a 2.000 quilómetros sem qualquer paragem, para passar o inverno na África subsaariana – e alguns voos são até mais longos do que quatro mil quilómetros. Na primavera seguinte, os descendentes dessas borboletas fazem o caminho inverso, recolonizando o Mediterrâneo e a Europa. No total, ao somar o voo anual das várias gerações sucessivas, o circuito migratório anual da bela-dama pode ultrapassar os 12 mil quilómetros, o que a torna, segundo os autores do estudo, a borboleta com a rota migratória mais longa alguma vez documentada.

Um estudo mais recente, publicado em 2024 na revista Current Biology pelos mesmos investigadores, mostra ainda como um episódio de vegetação excecional no Médio Oriente, no início de 2019, criou condições ideais para a reprodução da bela-dama naquela região e desencadeou uma onda migratória multigeracional que acabou por ser sentida em pelo menos dez países europeus, chegando até à Escandinávia. Mais uma vez, os investigadores chegaram a esta conclusão analisando o ADN do pólen agarrado ao corpo de centenas de borboletas recolhidas ao longo de sete meses.

A visita inesperada à América do Sul

Em outubro de 2013, três exemplares de bela-dama foram encontrados vivos numa praia da Guiana Francesa, na América do Sul. O achado só foi verdadeiramente compreendido mais de dez anos depois, quando os investigadores publicaram os resultados na revista Nature (2024).

Para perceber de onde tinham vindo aquelas borboletas, a equipa combinou várias técnicas: reconstruiu as trajetórias dos ventos dos dias anteriores à descoberta, analisou o ADN de grãos de pólen agarrados ao corpo dos insetos e mediu isótopos de hidrogénio e de estrôncio nas asas para determinar a região de origem. Os resultados apontaram para uma travessia mínima de 4.200 quilómetros sobre o Oceano Atlântico, com uma distância total que poderá ter ultrapassado os 7 mil quilómetros, caso as borboletas tenham partido da Europa Ocidental, como sugerem os dados genéticos e o pólen encontrado. Os investigadores estimam que o voo, ajudado pelos ventos alísios (correntes de ar que sopram de forma constante sobre o Atlântico), terá demorado entre cinco e oito dias, sem qualquer pausa para descanso ou alimentação.

Este continua a ser o único registo conhecido de uma travessia oceânica desta escala por parte de um inseto, e não significa que a bela-dama tenha passado a viver de forma permanente na América do Sul. Trata-se, para já, de um episódio raro e extraordinário, mas que levou os próprios investigadores a sugerir que os ventos oceânicos poderão funcionar como verdadeiras rotas de dispersão para vários insetos, ainda pouco estudadas.

Uma pequena grande aliada dos ecossistemas

Para além de todos os recordes de migração, a bela-dama desempenha um papel importante nos ecossistemas por onde passa. Os adultos alimentam-se do néctar de diversas flores, sobretudo de plantas compostas, e da melada produzida por afídeos, contribuindo assim para a polinização.

Ao longo do seu ciclo de vida, a bela-dama serve também de alimento a diversos predadores, entre os quais aves, morcegos, formigas, vespas e aranhas, integrando-se numa complexa cadeia alimentar.

É por isso uma espécie fácil de observar (foi registada na Herdade de Espirra, propriedade da The Navigator Company) e, ao mesmo tempo, fascinante de estudar: comum o suficiente para ser vista em qualquer jardim ou baldio e, ainda assim, capaz de protagonizar uma das viagens mais notáveis de todo o reino animal.

Sabia que…

  • Em 2019, um crescimento excecional de plantas no Médio Oriente criou condições ideais para a reprodução da bela-dama e desencadeou uma vaga migratória multigeracional sentida em pelo menos dez países, entre a Península Ibérica e a Escandinávia.
  • Os três exemplares de bela-dama recolhidos numa praia da Guiana Francesa, em 2013, só foram estudados em profundidade e revelados ao mundo em 2024, quando novas técnicas de análise genética e isotópica permitiram reconstituir a viagem que tinham feito.
  • Nem todas as bela-damas fazem a viagem completa entre a Europa e África. Muitas ficam a viver e a reproduzir-se durante várias gerações na África subsaariana, sendo apenas os descendentes mais distantes, nascidos já no continente africano, que acabam por regressar ao Mediterrâneo na primavera seguinte.
  • Bela-dama

    Vanessa cardui

  • Inseto

  • Género

    Vanessa

  • Família

    Nymphalidae

  • Habitat

    Prados, orlas de bosques, áreas ruderais, dunas e jardins urbanos, até aos dois mil metros de altitude.

  • Distribuição

    Em todo o mundo, exceto na Antártida e na América do Sul. Em Portugal, ocorre em todo o território, incluindo os arquipélagos dos Açores e da Madeira.

  • Estado de Conservação

    Pouco preocupante (LC)

  • Altura/comprimento

    Envergadura de cerca de 7 centímetros, sendo as fêmeas geralmente maiores.

  • Longevidade

    A expectativa de vida da Vanessa cardui é curta, com uma média de cerca de um ano.

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