“Despido” de folhas, o cólquico-do-norte (Colchicum multiflorum Brot.) brota no outono diretamente da terra, sem aparato e quase sem aviso. Esta “dama-nua” ergue-se solitária no caule, inspirando a metáfora popular de “nudez” botânica. Trata-se de uma estratégia de floração singular, cujo ciclo de vida continua a fascinar quem o contempla.
23 de outubro de 2026
Há plantas que gostam de chegar à primavera em grande estilo, vestidas de cor e rodeadas de polinizadores. O cólquico-do-norte prefere fazer as coisas de outra maneira. E, convenhamos, tem um calendário bastante próprio.
Esta planta herbácea vivaz é endémica da Península Ibérica e é um geófito tuberoso: durante parte do ano, permanece escondida no subsolo, onde guarda reservas num órgão subterrâneo. A espécie ocorre sobretudo em zonas montanhosas. Pode ser encontrada em clareiras ou sob o coberto de bosques caducifólios, como carvalhais, freixiais e soutos, mas também em pastagens e matos abertos. Prefere, em geral, substratos ácidos.

O despertar outonal
No final do verão e durante o outono, quando muitas plantas já terminaram a floração, o cólquico-do-norte produz as suas flores. É quase como se a planta tivesse decidido trocar a primavera pelo outono.
Estimulado pelas primeiras chuvas e pela descida da temperatura, o bolbo do cólquico-do-norte envia botões florais diretamente do solo para a superfície. Este despertar outonal ocorre entre setembro e novembro.
Os insetos polinizam a flor. O ovário da planta fica escondido debaixo da terra, protegido do frio inicial do inverno, onde o fruto começa a desenvolver-se muito lentamente.
Após a polinização, as flores murcham e desaparecem por completo. É então que se dá o repouso invernal. Durante os meses mais frios, não se vê absolutamente nada à superfície. Debaixo da terra, o fruto fertilizado continua a sua maturação e o bolbo prepara-se para a fase seguinte.
Com a chegada da primavera, a planta reaparece, mas com uma anatomia totalmente diferente. Nascem folhas verdes, largas e grandes. Estas realizam a fotossíntese para alimentar e carregar de energia o bolbo subterrâneo para o ano seguinte.
Juntamente com as folhas, o ovário (que estava enterrado) é empurrado para cima. Surge uma cápsula que se abre para libertar as sementes à superfície.
Quando o calor e a seca do verão começam, as folhas amarelecem, secam e desaparecem por completo. Neste período de verão, chamado de estivação, a planta entra num estado de dormência profunda. O bolbo fica enterrado novamente, protegido do calor extremo, aguardando que o ciclo recomece no outono seguinte.
Uma gestão inteligente de energia
A estratégia do cólquico-do-norte tem uma explicação simples: separar no tempo diferentes fases do seu ciclo de vida.
As folhas aparecem antes das flores e são responsáveis por produzir e armazenar recursos. Quando a planta floresce, já não precisa de manter a parte aérea foliar. Em vez de gastar energia durante todo o ano, concentra diferentes etapas do seu desenvolvimento em momentos distintos.
As flores, de tonalidades entre o rosa e o lilás, destacam-se no início do outono, quando a paisagem começa a mudar de cor. Esta floração tardia torna a espécie particularmente interessante quer para polinizadores que já não têm muito repasto por onde escolher, quer para quem observa a biodiversidade ao longo das estações.

O perigo oculto desta dama
Existe outra característica do género Colchicum que merece atenção: a presença de colchicina, um composto alcaloide altamente tóxico.
As plantas deste género podem ser confundidas com outras espécies de flores semelhantes, nomeadamente alguns açafrões (Crocus). Mas parecer-se com uma planta conhecida não significa ser segura para consumo.
A colchicina é uma substância biologicamente muito ativa e pode ser tóxica quando ingerida em quantidade. Ao mesmo tempo, tem aplicações farmacológicas em condições controladas. É mais um daqueles casos em que a Natureza mostra que a diferença entre “veneno” e “medicamento” pode depender da dose, da preparação e, sobretudo, do conhecimento científico.
Também para o gado, este ciclo de vida inusitado levanta um problema grave de segurança. Na primavera, quando os pastos estão verdes, as folhas do Colchicum multiflorum confundem-se facilmente com a erva fresca. Ao consumi-las nesta fase, os animais correm sério risco de envenenamento mortal.
Uma espécie discreta, mas importante
O cólquico-do-norte não é uma daquelas plantas que domina a paisagem ou que chama imediatamente a atenção. O seu interesse está precisamente no seu específico ciclo de vida e na forma discreta como participa nos ecossistemas onde ocorre.
Ao aparecer em bosques caducifólios, clareiras, pastagens e matos de montanha, integra comunidades vegetais adaptadas a condições específicas de solo, altitude e clima.
A manutenção destes habitats é essencial para conservar não apenas esta espécie, mas também muitas outras plantas, fungos e animais que deles dependem.

Sabia que…
- O nome do género Colchicum tem uma longa história. O género inclui cerca de 165 espécies aceites pelo Plants of the World Online, do Royal Botanic Gardens, Kew.
- O cólquico-do-norte é uma espécie descrita originalmente por um botânico português. O nome científico Colchicum multiflorum foi publicado por Félix de Avelar Brotero em 1804, na Flora Lusitanica.
- Não é um açafrão. Apesar de algumas flores poderem parecer semelhantes, o cólquico pertence à família Colchicaceae, enquanto os açafrões pertencem à família Iridaceae.
Como protegemos a espécie?
O cólquico-do-norte (Colchicum multiflorum) é uma das espécies de flora identificadas em propriedades sob gestão da The Navigator Company. A sua presença está confirmada num único local, em Trás-os-Montes.
Não sendo uma espécie ameaçada, beneficia das medidas de conservação que a Navigator aplica aos locais com presença de valores naturais: a constituição de zonas de interesse para a conservação, geridas com esse objetivo.
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Cólquico-do-norte
Colchicum multiflorum Brot.
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Planta
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Ordem
Liliales
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Género
Colchicum
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Família
Colchicaceae
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Habitat
Clareiras e bosques caducifólios, incluindo carvalhais, freixiais e soutos; pastagens e matos abertos, sobretudo em zonas de montanha. Prefere substratos ácidos.
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Distribuição
Portugal e Espanha: espécie endémica da Península Ibérica.
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Estado de Conservação
Não ameaçada, segundo a previsão global de risco de extinção do projeto Angiosperm Extinction Risk Predictions.
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Altura/comprimento
Pode atingir até 10 cm de altura.
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Longevidade
Planta herbácea vivaz


