Todos os anos, milhões de animais partem numa viagem que pode levá-los a percorrer centenas ou mesmo milhares de quilómetros entre áreas de reprodução e zonas de alimentação ou invernada.
29 de outubro de 2026
Entre os mais extraordinários viajantes estão as aves: algumas conseguem encontrar o caminho para lugares onde nunca estiveram, mesmo na primeira migração, sem a companhia dos adultos. Mas como sabem para onde ir? E quanto dessa viagem já está, de alguma forma, “programada” antes de nascer?
Migrar não é simplesmente deslocar-se de um lugar para outro. É uma estratégia de sobrevivência que exige escolher quando partir, em que direção seguir, como manter o rumo e, em muitos casos, reconhecer quando se chegou ao destino.
Nas aves, estas capacidades resultam de uma combinação extraordinária de comportamentos herdados, informação ambiental e aprendizagem.
Algumas espécies parecem nascer com uma predisposição para migrar numa determinada direção e época do ano. Outras precisam adquirir, com a experiência, parte da informação necessária para aperfeiçoar a rota.
É por isso que a primeira viagem de uma ave jovem pode parecer um paradoxo: como é possível encontrar um destino que nunca viu?

Um mapa que não vem em papel
Uma das pistas está no próprio comportamento. Algumas aves migratórias apresentam, antes mesmo de terem realizado uma migração, uma inquietação característica quando chega a época de partir.
Este comportamento, conhecido como zugunruhe, manifesta-se, por exemplo, em aves mantidas em cativeiro que se tornam mais ativas e orientam os movimentos numa determinada direção durante a época migratória.
Experiências com diferentes populações e cruzamentos mostraram também que características relacionadas com a migração podem ser herdadas.
Em determinadas aves, a direção, a distância ou o momento da migração apresentam componentes genéticos. Isto significa que a informação não precisa de ser totalmente ensinada pelos pais: parte das “regras” básicas da viagem pode fazer parte do programa de desenvolvimento da ave.
Mas “programado” não significa “com uma rota completa gravada no cérebro”. A ave não nasce necessariamente com um mapa onde estão assinalados todos os rios, montanhas e árvores do caminho. O mais provável é que herde predisposições e mecanismos que lhe permitem interpretar diferentes pistas e ajustar o percurso.

Sol, estrelas e um sentido que nós não temos
Para se orientarem, as aves podem recorrer a uma verdadeira caixa de ferramentas sensoriais.
Durante o dia, algumas utilizam a posição do Sol como bússola. À noite, determinadas aves migratórias conseguem orientar-se através da posição e rotação aparente das estrelas. E existe ainda uma pista que para nós é invisível: o campo magnético da Terra.
Algumas aves conseguem detetar características desse campo e utilizá-las para determinar a direção. Há evidências de que certos parâmetros magnéticos também podem fornecer informação sobre a posição, funcionando como uma espécie de “mapa magnético”. O mecanismo exato através do qual as aves percecionam e combinam esta informação continua, no entanto, a ser objeto de investigação.
A orientação pode ainda ser complementada por elementos da paisagem, como rios, costas ou cadeias montanhosas, e por outros sinais ambientais. É como se a ave tivesse acesso a vários sistemas de navegação em simultâneo e pudesse recorrer a diferentes pistas consoante as condições.
A primeira viagem também é uma escola
Se algumas instruções são herdadas, isso não significa que a experiência seja dispensável.
Os juvenis podem aprender características do percurso durante as primeiras migrações e, nos anos seguintes, utilizar essa informação para tornar as viagens mais eficientes.
Em algumas espécies, os adultos experientes aperfeiçoam as rotas com base no que encontraram em viagens anteriores.
Existe, assim, uma combinação fascinante entre natureza e aprendizagem: a ave pode nascer com uma predisposição para seguir determinada direção, mas a experiência ajuda-a a construir e afinar a “geografia” da viagem.
É também por isso que alterações no ambiente podem criar novos desafios. Se uma ave depende de determinadas referências naturais ou de condições específicas ao longo do percurso, a transformação dessas paisagens pode interferir com uma viagem que evoluiu ao longo de muitas gerações.

Uma viagem que começa antes do primeiro voo
A migração mostra-nos que o comportamento animal pode ser simultaneamente herdado e flexível.
Uma ave jovem pode não precisar de receber uma aula de orientação para saber que chegou o momento de partir ou qual a direção geral a seguir. Mas também não está condenada a repetir mecanicamente uma rota escrita no seu código genético. Ao longo da vida, pode recolher informação do ambiente, aprender e ajustar o seu comportamento.
E talvez seja precisamente essa combinação que torna a migração tão extraordinária: uma viagem que começa antes do primeiro voo, mas que continua a ser descoberta enquanto acontece.
No fundo, não existe um pequeno navegador dentro da cabeça da ave com um mapa e uma seta a dizer “é por aqui”. Existe algo muito mais complexo: milhões de anos de evolução, sentidos especializados, informação herdada e a aprendizagem a trabalhar em conjunto.
Sabia que…
- Algumas aves jovens fazem a primeira migração sem seguir os pais. Em várias espécies, os juvenis partem sozinhos e conseguem orientar-se apesar de nunca terem visitado o destino.
- A migração tem uma componente genética. Estudos experimentais com populações de aves migradoras mostram que características como a direção e a intensidade do comportamento migratório podem ser herdadas.
- A migração não é exclusiva das aves. Baleias, tartarugas-marinhas, salmões, morcegos, insetos e outros animais realizam movimentos migratórios de longa distância e desenvolveram diferentes formas de orientação e navegação.


