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OLHOS, PARA QUE TE QUERO

E se lhe dissermos que os nossos antepassados tinham quatro olhos? E não estamos a falar de óculos… A evolução da visão mudou para sempre a relação entre predadores e presas e impulsionou a explosão de formas e estratégias no reino animal.

O que seria do reino animal sem o superpoder da visão? A transformação do órgão visual foi tão importante para a evolução de algumas espécies como o domínio do fogo para o desenvolvimento da sociedade.

Embora a simples deteção de luz seja comum e fundamental para muitas formas de vida (bactérias, algas, plantas e muitos outros grupos de seres vivos) e a sua história seja quase tão antiga como a própria vida, a evolução de um órgão captador de imagens do ambiente envolvente demorou muito mais tempo para aparecer.

Visto como o grande catalisador – o ‘interruptor’ – da biodiversidade, o olho funcional surgiu há mais de 500 milhões de anos, no Período Câmbrico, mudando por completo a forma como os seres vivos interagem com o que os rodeia.

Conchas, armaduras e exoesqueletos, por exemplo, surgiram nesta altura como sistemas de defesa altamente eficazes.

Otimização de sistemas

O desenvolvimento da visão foi, ao mesmo tempo, gatilho e consequência de uma nova ordem animal. A ideia de que esta provocou um salto evolutivo dos vertebrados sai, agora reforçada por um estudo publicado na revista Nature.

A conclusão, a partir da análise fóssil de peixes ancestrais (do grupo myllokunmingídeos), foi de que esses primeiros vertebrados tinham quatro olhos, do tipo câmara, e que estes lhes teriam dado grande vantagem evolutiva.

Descobriu-se que os dois órgãos medianos (entre os dois olhos laterais), antes descartados como sacos nasais, têm uma origem embrionária comum com a glândula pineal. Nos humanos e nos restantes mamíferos, ela é hoje uma estrutura endócrina, responsável essencialmente pela regulação do sono.

Mas outros vertebrados, como a tuatara, réptil endémico da Nova Zelândia, mantêm o chamado terceiro olho. Apesar de não formar imagens detalhadas, é diretamente sensível à luz e tem funções de termorregulação e orientação, entre outras.

Certificado de eficiência energética

A descoberta tem relevância do ponto de vista evolutivo, já que indica uma complexidade visual até agora desconhecida nos vertebrados ancestrais e reforça a ideia de que a evolução é sobretudo adaptação e otimização.

Biologicamente, nesta subcategoria de animais (subfilo) mais não é necessariamente melhor, pelo que o progresso visual aconteceu a custo do aperfeiçoamento e especialização dos dois olhos laterais/frontais, acabando por simplificar ou transformar as outras estruturas.

Manter os quatro olhos, tipo câmara, requeria um grande esforço metabólico, não sendo por isso rentável do ponto de vista da economia evolutiva: o gasto de energia não compensava o benefício.

Soluções diferentes para o mesmo problema

A visão é um excelente exemplo da convergência evolutiva, quando linhagens diferentes apresentam soluções idênticas para o mesmo desafio: usar a luz para interpretar o ambiente e assegurar a sobrevivência.

As estruturas visuais evoluíram de forma independente em cada grupo animal e estão otimizadas para necessidades e estilos de vida diferentes.

O polvo e a lula possuem olhos tipo câmara, como a maior parte dos vertebrados; as aranhas têm oito olhos simples, chamados ocelos, altamente especializados, que lhes dão uma visão panorâmica.

Dos cinco olhos das abelhas, dois são compostos, ou seja, formados por várias unidades visuais (omatídios) que, juntas, captam a imagem total.

Já as vieiras podem ter até 200 olhos, aqueles pontinhos azuis que parecem missangas e “enfeitam” a borda da concha.

O que dizem os seus olhos? Essencialmente, o lugar que ocupam no reino animal e a forma como monitorizam o mundo.

SABIA QUE…

  • Costuma dizer-se que as plantas veem, apesar de não terem olhos. O fototropismo é um mecanismo que permite às plantas ajustar a orientação das suas folhas, caules ou flores em direção à fonte de luz.
  • No campo da visão de cores, o camarão-louva-a-deus supera todos os outros animais. Com doze tipos de fotorreceptores, ele percebe nuances e polarizações de luz invisíveis ao olho humano.
  • Uma águia consegue avistar um coelho a mais de 3 km de distância e distingui-lo do fundo.
  • O olho da lula gigante mede cerca de 17 centímetros de diâmetro.

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