Na natureza, não existem monstros nem assassinos. Existem sobreviventes. E, por vezes, sobreviver significa alimentar-se da própria espécie. O canibalismo animal é muito mais comum e muito mais complexo do que podemos imaginar.
A fauna e a flora, incansáveis no seu fascínio, conseguem sempre ser cativantes, engraçadas, doces e caricatas sem que, simultaneamente, isso as impeça de viver num diálogo de profunda tensão.
Esse diálogo assenta, muitas vezes, em relações mutualistas e de entreajuda. Mas, em muitos casos, pende para um diálogo carregado de violência, baseado na lei do mais forte, que não vê raças nem corações.
Quando observamos as relações entre os seres vivos, encontramos interações positivas, em que ambas as espécies beneficiam, e interações negativas, onde a sobrevivência de um depende da perda do outro. Entre estas últimas existe um comportamento que continua a despertar fascínio e desconforto: o canibalismo.
Apesar da fama que o acompanha, o canibalismo está longe de ser uma raridade. Está presente em centenas de espécies e pode surgir por diferentes razões: escassez de alimento, competição, reprodução ou aumento das probabilidades de sobrevivência da descendência.
O objetivo? Sobreviver. Apenas isso. Uma “fome” predatória e pragmática, alheia a considerações morais, que a nossa natureza interpretativa e simbólica transforma facilmente numa imagem macabra e monstruosa.
Mas o mundo animal não vê as coisas dessa forma: nenhuma espécie olha para um semelhante como a sobremesa ideal que fecha uma excelente refeição. O mundo animal é complexo, feito de verdades fascinantes e inconvenientes, onde existe grande compaixão, mas também grande ferocidade. Sem sentimentalismos ou segundas intenções, o reino animal simplesmente é.






