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Canibalismo animal: quem é o verdadeiro “animal lecter?”

Na natureza, não existem monstros nem assassinos. Existem sobreviventes. E, por vezes, sobreviver significa alimentar-se da própria espécie. O canibalismo animal é muito mais comum e muito mais complexo do que podemos imaginar.

A fauna e a flora, incansáveis no seu fascínio, conseguem sempre ser cativantes, engraçadas, doces e caricatas sem que, simultaneamente, isso as impeça de viver num diálogo de profunda tensão.

Esse diálogo assenta, muitas vezes, em relações mutualistas e de entreajuda. Mas, em muitos casos, pende para um diálogo carregado de violência, baseado na lei do mais forte, que não vê raças nem corações.

Quando observamos as relações entre os seres vivos, encontramos interações positivas, em que ambas as espécies beneficiam, e interações negativas, onde a sobrevivência de um depende da perda do outro. Entre estas últimas existe um comportamento que continua a despertar fascínio e desconforto: o canibalismo.

Apesar da fama que o acompanha, o canibalismo está longe de ser uma raridade. Está presente em centenas de espécies e pode surgir por diferentes razões: escassez de alimento, competição, reprodução ou aumento das probabilidades de sobrevivência da descendência.

O objetivo? Sobreviver. Apenas isso. Uma “fome” predatória e pragmática, alheia a considerações morais, que a nossa natureza interpretativa e simbólica transforma facilmente numa imagem macabra e monstruosa.

Mas o mundo animal não vê as coisas dessa forma: nenhuma espécie olha para um semelhante como a sobremesa ideal que fecha uma excelente refeição. O mundo animal é complexo, feito de verdades fascinantes e inconvenientes, onde existe grande compaixão, mas também grande ferocidade. Sem sentimentalismos ou segundas intenções, o reino animal simplesmente é.

Na sobrevivência, nada fica fora da mesa

Curiosamente, há uma enorme possibilidade de nos depararmos, na calmaria das nossas vidas modernas, com uma das práticas de canibalismo mais recorrentes no mundo animal.

O termo? Canibalismo filial. O protagonista? O melhor amigo do homem: o cão. O termo filial significa, como o nome sugere, o ato de canibalismo de um progenitor para com uma cria. Existem algumas razões para que os cães pratiquem este ato, mas trata-se de um comportamento raro e normalmente associado a situações extremas, como stress ou inexperiência.

Este ato de canibalizar a descendência espelha, uma vez mais, um enorme instinto de sobrevivência. Apesar do conforto em que os quadrúpedes vivem, continuam a responder, por força da sua herança comportamental, a mecanismos ancestrais de sobrevivência. Quando sentem que estão em perigo e que as crias podem não chegar à idade adulta, consomem-nas.

Se a cria apresentar sinais de doença, deformação ou, inclusive, se o próprio progenitor não conseguir desenvolver condições de amamentação ou, incapacitado pelo parto, obter outros alimentos, surge o pretexto para o canibalismo filial. A cria deixa de ser um animal e transforma-se numa fonte de nutrientes, essencial à recuperação pós-parto da progenitora.

Felizmente, nas atuais condições de parto dos animais domésticos, muitos criadores e tutores permanecem em estado de alerta para quaisquer indícios de doença nas crias, de forma a evitar este tipo de cenário. Além disso, a medicina veterinária moderna está capacitada para salvaguardar, proteger e tratar grande parte dos problemas de saúde que surgem à nascença.

A praticidade fria e crua da natureza pode parecer-nos avassaladora, mas, em simultâneo, esconde um poderoso sentido de sobrevivência, onde as decisões difíceis de um determinado dia prolongam a possibilidade de sobrevivência a médio e longo prazo.

Vejamos o caso do peixe blenny-de-queixo-barrado, conhecido cientificamente como Rhabdoblennius nitidus. Quando a elevada presença de ovos no seu sistema lhe baixa os níveis de androgénio, o que, consequentemente, o impede de conseguir acasalar, o progenitor pode consumir parte dos próprios ovos.

Neste caso específico, o canibalismo serve como um instinto de prevenção extrema: os ovos, para além de um “fardo”, passam a ser vistos como uma fonte segura e imediata de nutrição.

Entre os ciclídeos africanos, pertencentes à família Cichlidae, conhecidos cientificamente como Astatotilapia burtoni, as fêmeas carregam os ovos na boca onde eclodem, e acabam por, acidentalmente, consumir cerca de três quartos das crias. O comportamento está associado a situações de stress oxidativo, já que a fêmea não respira nem se alimenta de forma adequada enquanto transporta os filhotes.

Quando a família se torna rival

Quem acredita que o melhor de uma verdadeira novela está nos grandes embates e confrontos familiares da espécie humana claramente nunca sintonizou o canal das grandes quezílias do mundo selvagem.

Relações destroçadas? Paternidades incertas? Os humanos, por uma questão de civismo, ainda procuram criar estruturas que atenuem estas questões.

Mas o pragmatismo da natureza utiliza a violência como resolução, qual tragédia grega. Vejamos o exemplo do esquilo-vermelho, da espécie Tamiasciurus hudsonicus. Este roedor é capaz de matar e comer as crias que suspeita não serem da sua “autoria”. Ao fazê-lo, surge uma reviravolta hormonal: a morte das crias desencadeia o cio na fêmea e garante, da parte do macho, uma descendência controlada.

Poderia ser um caso isolado, mas este ciclo de morte é recorrente em diversas espécies: leões, chimpanzés, sapos e até tubarões.

No caso dos anfíbios, nomeadamente dos sapos da família Scaphiopodidae, é costume os pais deixarem os ovos em lagos que secam com facilidade.

Escasseia a água, escasseiam os nutrientes, situação que desencadeia atos de canibalismo: os girinos mais desenvolvidos alimentam-se dos mais pequenos e vulneráveis.

Já as crias de certos tubarões, como o tubarão-tigre-de-areia (Carcharias taurus) e o tubarão-anequim (Isurus oxyrinchus), levam esta competição ao extremo mesmo antes do nascimento, num ato a que chamamos de canibalismo intrauterino.

As fêmeas carregam dentro de si milhares de ovos de vários parceiros. À medida que as crias começam a desenvolver-se na barriga da mãe, alimentam-se indiscriminadamente dos óvulos não fertilizados e dos irmãos menos desenvolvidos. O fervor é tão intenso e o instinto de caça absolutamente inato que, no fim, acabam por sobreviver apenas dois tubarões.

Maternidade: a teia de sacrifício, apoio e amor

Nem todo o canibalismo resulta de competição. Em alguns casos, representa um extraordinário investimento parental.

É o caso das aranhas da família Eresidae, um dos exemplos mais impressionantes. Estas aranhas deixam-se consumir pelas próprias crias, de forma a aumentar as suas probabilidades de sobrevivência.

Depois de alimentarem as crias com secreções produzidas pelo próprio organismo, muitas fêmeas acabam por ser consumidas pela descendência. Este comportamento, a matrifagia, fornece nutrientes essenciais durante uma fase crítica do desenvolvimento dos jovens.

Vamos submundo adentro, estonteados por conceitos que polinizam e desafiam as nossas ideias entre perigo e desejo. Este imaginário, entre o real e a fantasia, é responsável pela associação das aranhas ao perigo e ao medo.

Por exemplo, a favorita do público, a viúva-negra-australiana, do género Latrodectus, consome o parceiro macho durante o acasalamento. Apesar daquilo que os nossos instintos possam conjurar, este ato não é uma tentativa fulminante de divórcio sem acordo pré-nupcial. Nem a viúva-negra-australiana quer apropriar-se de uma fortuna milenar guardada no baú de uma qualquer mansão.

Na verdade, o macho está perfeitamente ciente da sucessão de acontecimentos e aceita o seu consumo como uma fonte nutritiva que dará alento às crias que, em breve, a fêmea irá gerar.

Olhando para este elemento de forma positiva, podemos denominar estas aranhas, macho e fêmea, como os pais com a mais forte noção de responsabilidade e espírito de sacrifício em prol dos filhos.

O canibalismo é uma questão de necessidade, sempre que existe stress ou carência de nutrientes. Mas, como pudemos ver, é uma relação extremamente limitada, não ameaçando as espécies com uma autoextinção anunciada. Na natureza, o amor, o cuidado, a sobrevivência e a vida misturam-se num verdadeiro filme que quebra barreiras e subverte categorias.

Mas o fascínio hipnotizante subsiste e destrói quaisquer interpretações e visões do mundo que temos. Não se trata de concordar ou rejeitar. É um mundo que nos alimenta e inspira através da observação, abrindo novas perspetivas, sem que as tenhamos, necessariamente, de aceitar.

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