A Terra jovem e a atmosfera primitiva
Nos primeiros mil milhões de anos da Terra, o vulcanismo era muito mais intenso do que hoje. Erupções contínuas libertavam gases que foram construindo, camada a camada, a atmosfera primitiva do planeta, que, sem oxigénio, era composta por uma mistura de azoto, dióxido de carbono, metano e vapor de água, muito diferente do ar que respiramos agora.
Uma das hipóteses clássicas para o surgimento da vida é a chamada hipótese da “sopa primordial”, avançada nos anos 1920 pelo bioquímico russo Aleksandr Oparin e pelo biólogo britânico J. B. S. Haldane.
Ambos acreditavam que as primeiras moléculas orgânicas se formaram numa mistura aquosa rica em compostos químicos, que pressupõe precisamente a existência de uma atmosfera rica nos gases que os vulcões libertavam.
Em 1953, os cientistas norte-americanos Stanley Miller e Harold Urey simularam em laboratório essa atmosfera primitiva e fizeram passar descargas elétricas através dela. O resultado foi a formação espontânea de aminoácidos (os blocos de construção das proteínas, que são os blocos de construção da vida). O vulcanismo estava, literalmente, escrito na experiência.
Relâmpagos vulcânicos: a tempestade encontra a química
As grandes erupções explosivas geram nuvens de cinza de dimensões imensas que sobem até à estratosfera (a camada da atmosfera situada entre os 12 e os 50 quilómetros de altitude). Nessas nuvens, o atrito entre as partículas gera eletricidade estática e relâmpagos. Muitos relâmpagos.
Um estudo publicado em 2024 nos Proceedings of the National Academy of Sciences, liderado pela geocientista Adeline Aroskay da Universidade de Sorbonne, trouxe algo novo: pela primeira vez, foram encontradas quantidades significativas de nitratos (compostos de azoto já fixado) em depósitos vulcânicos de erupções explosivas antigas, tanto na Turquia como no Peru, com entre 1,6 e 20 milhões de anos.
Porque é que isto importa? Porque o azoto é um nutriente essencial para a vida, indispensável para construir proteínas, aminoácidos e ácidos nucleicos, as moléculas que guardam e transmitem a informação genética. Cerca de 78% da atmosfera é composta por azoto molecular (N₂), mas as células não conseguem usá-lo nessa forma. Os átomos de azoto precisam de ser “excitados” para formar compostos mais pesados que precipitam para o solo. Antes de existir vida, os relâmpagos vulcânicos provaram ser suficientemente energéticos para fazer esse trabalho.