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Entre perceção e evidência: repensar a floresta portuguesa

Um estudo recente revela um desfasamento entre o que os portugueses pensam sobre a floresta e aquilo que a ciência demonstra, com implicações diretas para o debate público.

Desenvolvido pelo ISCTE em parceria com a Navigator, o estudo, “Para além das perceções sobre a floresta e o eucalipto”, apresenta novos dados sobre a forma como os portugueses percecionam a floresta e, em particular, o papel de espécies como o eucalipto. Com base em inquéritos à população, a investigação procurou cruzar a opinião pública com a evidência científica, revelando inconsistências relevantes.

Os resultados apontam para um padrão claro: muitas das ideias mais disseminadas sobre a floresta – desde o consumo excessivo de água por determinadas espécies até às causas dos incêndios – não encontram correspondência direta na literatura científica. Ainda assim, essas opiniões continuam a influenciar o debate público e, de forma indireta, as decisões políticas e de gestão do território.

Este desfasamento não é um detalhe. Num país onde a floresta desempenha um papel central ecológico, económico e social, compreender o que sabemos, e sobretudo o que pensamos saber, torna-se um passo crítico para qualquer estratégia futura.

Floresta: um território de perceções

A floresta portuguesa é um dos principais sistemas ecológicos e económicos do país, ocupando uma parte significativa do território e sustentando atividades, comunidades e a biodiversidade.

Apesar dessa relevância, continua a ser percecionada de forma fragmentada. O estudo do ISCTE revela que muitos portugueses associam o estado da floresta sobretudo a problemas visíveis, como os incêndios, sem integrar fatores estruturais como a gestão, o ordenamento do território ou o contexto socioeconómico.

Esta discrepância não é apenas uma questão de informação, é também uma questão de narrativa. A floresta surge frequentemente no espaço mediático em momentos de crise, o que condiciona a forma como é entendida.

Contudo, existe um ponto de consenso: o papel da gestão florestal é benéfico e central. A maioria das pessoas (72,3%) reconhece que florestas bem geridas, independentemente da espécie plantada, apresentam um menor risco de incêndio (75,8%) e uma maior capacidade de gerar valor ecológico e económico.

Paradoxalmente, subsiste uma narrativa generalizada de abandono: grande parte da população (69%) acredita que a floresta portuguesa está malcuidada.

Esta combinação (o reconhecimento da importância da gestão e a perceção da sua ausência) aponta para um dos maiores desafios estruturais do território: não é apenas o que se planta, mas sobretudo como se gere.

O caso do eucalipto: símbolo de um debate simplificado

Poucas espécies ilustram melhor este conflito entre o que se sabe e o que realmente é do que o eucalipto. Frequentemente associado a impactos negativos, é também uma das espécies mais debatidas em Portugal.

Dados recentes mostram que quase metade da população (49,5%) acredita que o eucalipto consome mais água do que outras espécies, ignorando a evidência científica sobre a sua eficiência hídrica em determinados contextos.

Também o papel do eucalipto na fixação de dióxido de carbono é um aspeto que está longe de ser percebido pela opinião pública. Muitos desconhecem que é uma das árvores que capta mais dióxido de carbono e liberta mais oxigénio por área plantada, assim como o seu importante contributo no combate à erosão dos solos.

A floresta plantada de eucalipto e os seus derivados (pasta de papel, papel e energia) constituem um pilar fundamental da economia portuguesa, realidade que a maioria dos inquiridos reconhece. Representa uma parte significativa do valor gerado pelo setor florestal, contribuindo com mais de 5% do PIB nacional, gera milhares de postos de trabalho  e a bioindústria assume um papel relevante na transição para modelos de desenvolvimento mais sustentáveis, nomeadamente através de produtos substitutos dos derivados do petróleo.

Ao mesmo tempo, desconhecem que Portugal continua a importar madeira desta espécie, o que revela um paradoxo: critica-se a presença do eucalipto, mas depende-se dele economicamente.

Este tipo de contradição evidencia a dificuldade em integrar o que a ciência revela no debate público.

Défice de literacia

Especialistas alertam para a persistência de preconceitos associados a espécies e práticas florestais, muitas vezes alimentados por falta de literacia ambiental.

A ciência tem vindo a aprofundar o conhecimento sobre o comportamento das espécies, os ciclos ecológicos e as interações no território. No entanto, essa informação raramente chega ao público de forma clara e acessível.

Neste contexto, a Navigator lançou o livro “Eucalipto: História, Território e Conhecimento” que tem como objetivo “traduzir conhecimento científico para uma linguagem acessível”, reforçando a importância da literacia florestal entre jovens, professores, jornalistas e decisores, afirma António Redondo, CEO da Navigator. O intuito é elevar o debate público sobre a floresta portuguesa de produção, a gestão florestal e a valorização dos seus recursos.

O futuro: integrar produção, conservação e conhecimento

Há sinais positivos. Uma parte significativa dos inquiridos defende o aumento da área florestal, desde que conciliando diferentes funções: produção, conservação e equilíbrio ecológico (66,2%).

A ideia de políticas de longo prazo, que ultrapassem ciclos políticos e promovam uma gestão integrada, reúne também um apoio alargado (61%).

Neste contexto, o verdadeiro desafio não está apenas em plantar mais árvores, mas em construir uma visão mais informada da floresta, onde o conhecimento substitua as ideias feitas.

Diminuir esta discrepância pode ser o primeiro passo para uma floresta mais resiliente, mais compreendida e, sobretudo, mais bem cuidada.

SABIA QUE…

  • A maioria da floresta não é eucalipto

Apesar da perceção comum, o eucalipto não domina a paisagem: ocupa cerca de 26% da área florestal (ou seja pouco mais de 9% da área do Portugal Continental), ficando atrás de sistemas como montados e pinhais.

  • O problema não é só a espécie… é a gestão

Dados indicam que áreas de eucalipto bem geridas apresentam taxas de incêndio muito baixas (cerca de 2%), em contraste com valores mais elevados em áreas sem gestão ativa.

  • Portugal tem uma das maiores áreas florestais da Europa

A floresta cobre cerca de 36% do território nacional (sendo que 99% da floresta é floresta de produção), um valor próximo da média europeia, o que reforça o seu peso ecológico e económico.

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