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Zimbro-bravo: a persistência escrita na paisagem

Resistente à seca, ao vento e a solos pobres, o zimbro-bravo (Juniperus oxycedrus) é uma das espécies que melhor traduz a resiliência dos ecossistemas mediterrânicos. Esta conífera guarda em si uma história de adaptação, equilíbrio ecológico e ligação profunda ao território. Venha conhecê-la.

Entre matagais abertos, clareiras florestais e solos pobres, instala-se o zimbro-bravo (Juniperus oxycedrus), arbusto robusto e quase desconhecido que sobe encostas rochosas do alto Tejo ao nordeste de Trás-os-Montes. A sua capacidade de sobreviver em condições adversas, onde a água escasseia e a exposição solar é intensa, faz dele uma espécie estruturante em paisagens mediterrânicas frágeis ou em recuperação, surgindo muitas vezes como um dos primeiros sinais de regeneração natural.

Também conhecido como zimbro-galego, cedro-de-Espanha, zimbro-espinhoso ou oxícedro, é uma pequena árvore vistosa e de aroma agradável, mas quase desconhecida. Embora considerada pouco preocupante a nível global, a espécie já sente a regressão da sua população, essencialmente, devido ao fecho do mosaico rural, à falta de clareiras e à escassa regeneração natural.

Agulhas, aromas e frutos do tempo

Muito valorizado pela sua beleza, o zimbro-bravo é utilizado como ornamento em jardins e espaços verdes. É uma árvore de crescimento lento, podendo viver até aos 200 anos. Apresenta uma copa larga e ramificada, assumindo, na maioria dos casos, uma aparência cónica ou oval, embora possa ocasionalmente revelar-se irregular.

A casca possui uma coloração que oscila entre o cinzento e o castanho-avermelhado e desprende-se do tronco em tiras estreitas. As folhas rígidas, em forma de agulha, são perenes, simples e lineares. São verdes com duas faixas centrais esbranquiçadas, devido a uma película cerosa que ajuda a reduzir a perda de água e a proteger a planta do stress térmico. Quando esmagadas, libertam um aroma intenso, resultado dos óleos essenciais que caracterizam a espécie.

A época de floração do zimbro-bravo começa no final do inverno e prolonga-se até ao final da primavera, havendo árvores com flores masculinas e femininas. Os falsos frutos ou gálbulos são pequenos, com 8 a 15 mm de diâmetro, carnudos e de maturação lenta, precisando de dois anos até chegarem à fase final. Evoluem do verde ao castanho-avermelhado e constituem um recurso alimentar importante para aves e pequenos mamíferos, que asseguram a dispersão das sementes.

Abrigo, raiz e equilíbrio

Para além da sua resistência, o zimbro-bravo desempenha funções ecológicas fundamentais. As suas raízes ajudam a fixar o solo e a reduzir a erosão, enquanto a copa oferece abrigo e locais de nidificação a várias espécies. Algumas borboletas e traças utilizam os zimbros como fonte de alimento para as suas larvas e deposição de ovos, enquanto as suas folhas servem de alimento a veados, cabras e ovelhas. No inverno, tem especial importância por possuir frutos carnudos quando a maioria dos alimentos escasseia. Assim, são diversos os animais que deles se alimentam como o tordo, o tentilhão ou o coelho-bravo.

Integrado em mosaicos de vegetação mediterrânica, contribui para a diversidade estrutural e cria condições para a instalação de outras espécies vegetais.

Depois do fogo, a espera paciente

Embora sensível a incêndios de grande intensidade, o zimbro-bravo revela uma notável capacidade de persistência ao longo do tempo. A sua regeneração é lenta, mas consistente, integrando os processos naturais de sucessão ecológica. A presença desta espécie em áreas pós-fogo é um sinal de resiliência e de continuidade ecológica, sobretudo em paisagens diversificadas e bem geridas como as propriedades da The Navigator Company.

Memória da paisagem: usos, saberes e tradição

Durante séculos, o zimbro-bravo foi parte integrante da vida rural mediterrânica. A madeira, dura e aromática, foi utilizada em estacas, utensílios e pequenas construções, valorizada pela sua durabilidade natural. Antigamente, era utilizada para vigas e postes na construção, em vinhas e no fabrico de lápis.

Da madeira e folhas ainda se extrai um óleo essencial, conhecido como óleo de cade ou óleo empireumático, cuja utilização remonta a práticas antigas e muito diversificadas. É sobretudo usado na área da saúde, em contextos dermatológicos humanos e veterinários, para aliviar afeções cutâneas como eczema, psoríase e sarna. As suas propriedades ajudam a combater parasitas, a remover camadas espessadas da pele e a reduzir a comichão. No passado, foi igualmente usado como desinfetante e no tratamento de parasitoses internas.

Para além do uso terapêutico, o óleo de cade é aplicado como repelente de insetos e em rituais de fumigação ou como incenso. É também um ingrediente comum em cosmética e perfumaria, em sabonetes e loções.

A tradição etnobotânica refere ainda aplicações relacionadas com o sistema respiratório, nomeadamente em doenças como bronquite, pneumonia ou tuberculose, bem como em práticas associadas à regulação do peso corporal.

Os gálbulos e as folhas tiveram aplicações na medicina tradicional, no tratamento de infeções do trato urinário e problemas articulares associados à calcificação e em práticas de defumação, associadas à conservação de alimentos e à proteção de espaços.

Mais do que um recurso, o zimbro-bravo foi símbolo de resistência e proteção, refletindo a ligação entre as comunidades humanas e a paisagem.

Gin: uma bebida muito apreciada

As gálbulas do zimbro, vulgarmente chamadas “bagas de zimbro”, são o ingrediente que está na base do gin, a bebida que tornou esta planta conhecida em todo o mundo. O seu aroma intenso, com notas resinosas, frutadas e ligeiramente picantes, é determinante para o sabor característico do gin e de outras bebidas espirituosas.

Para além do seu uso na destilação, as bagas de zimbro são também utilizadas na cozinha, sobretudo para aromatizar carnes, em especial pratos de caça. A sua utilização deve ser sempre moderada, pois pequenas quantidades são suficientes para libertar o aroma e o consumo excessivo pode ser prejudicial para os rins.

Proteger o que resiste

A conversão do uso do solo, o sobrepastoreio e a fragmentação dos habitats ameaçam a continuidade do zimbro-bravo. Valorizar esta espécie passa por reconhecer a importância dos matagais mediterrânicos, promover a gestão sustentável do território e integrar o zimbro-bravo em estratégias de restauro ecológico.

Dar visibilidade ao zimbro-bravo é reconhecer que a biodiversidade também se constrói a partir das espécies que resistem em silêncio. Proteger esta conífera é preservar a memória ecológica da paisagem e reforçar a capacidade dos ecossistemas.

Sabia que…

  • O nome do género, Juniperus, deriva de características dos zimbros. A sua origem pode estar na expressão celta ieneprus(áspero, rude), devido às folhas aciculares de várias espécies que terminam em espinhos ou então no latim iunio (jovem) e parere (produzir), pois estas espécies produzem frutos novos enquanto os de anos anteriores amadurecem.
  • O zimbro tem uma história milenar de uso medicinal: pensava-se que era uma cura para todos os males. Os antigos egípcios, árabes e outros povos nativos das regiões onde o zimbro cresce naturalmente utilizavam as folhas e “bagas” em infusões, tinturas e extratos contra diversas doenças. Na obra História Natural, Plínio, o Velho, já mencionava o zimbro, enquanto Aristóteles alegava que a planta era propícia para uma boa saúde. Na época da peste negra, queimavam-se as “bagas” e folhas do zimbro para purificar o ar.
  • Aroma como mecanismo de defesa. Os óleos essenciais responsáveis pelo cheiro intenso das folhas e da madeira funcionam como proteção natural contra insetos e fungos, aumentando a longevidade da planta mesmo em condições adversas.
  • Panoramix, o druida da banda desenhada Asterix, juntava à poção mágica zimbro recolhido com a Foice de Ouro, que dava força sobre-humana aos gauleses.
  • Zimbro-bravo

    Juniperus oxycedrus

  • Reino

    Plantas

  • Classe

    Pinopsida

  • Ordem

    Cupressales

  • Família

    Cupressaceae

  • Género

    Juniperus

  • Habitat

    Habita preferencialmente bosques de perenifólios de carvalhos, geralmente azinhais, ou zonas de matagal, onde por vezes é a espécie dominante, formando zimbrais. Pode também ser encontrado em zonas mais húmidas de floresta em altitudes mais elevadas, alcançando os 800 m de altitude (raramente os 1000 m).

  • Distribuição

    Distribui-se pelo centro do Mediterrâneo, desde Portugal e a Algéria até à Itália e Tunísia. Em Portugal continental ocorre no interior norte e centro do território, principalmente na região Nordeste de Trás-os-Montes.

  • Estado de Conservação

    Não Avaliado (NE).

  • Altura / Comprimento

    Até 14 metros de altura, mas raramente ultrapassa os 8 metros.

  • Longevidade

    Pode viver até aos 200 anos.

Como protegemos a espécie?

Várias espécies de zimbro estão integradas em habitats naturais com interesse para a conservação, constantes do Anexo I da Diretiva Habitats, nomeadamente o zimbro-bravo que se encontra incluído no habitat 5210 – Matagais arborescentes de Juniperus spp e no habitat 9560* – Florestas endémicas de Juniperus spp.

Apesar de o seu estado de conservação não estar avaliado, o zimbro-bravo perde espaço com o fecho do mosaico e a ausência de distúrbios moderados. Neste sentido, a The Navigator Company define áreas de proteção aos habitats de zimbro, que são geridos de forma a manter ou melhorar o estado de conservação. Estes locais proporcionam condições de alimentação, refúgio e reprodução, podendo funcionar como corredores ecológicos para facilitar a dispersão natural das espécies e o intercâmbio genético entre populações.

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