Mesmo depois de morrer, uma árvore continua a ser essencial à floresta: armazena carbono, cria habitats, favorece a biodiversidade e contribui para a reciclagem de nutrientes.
15 de outubro de 2026
Na floresta, a vida continua, num pragmatismo sem tempo para o luto. É o início de uma nova história. Entram em cena os colonizadores, que, sem tempo a perder, iniciam o trabalho de decomposição, numa gestão muito eficiente deste novo território: a madeira morta (biomassa lenhosa não viva em pé, caída no chão ou no solo, incluindo raízes mortas e cepos).
Os fungos, através das suas enzimas que degradam os componentes da madeira, são os principais decompositores, mas há outros intervenientes neste processo: as bactérias, que, em determinadas condições, podem facilitar a atividade fúngica, e alguns invertebrados, sobretudo insetos, como escaravelhos e térmitas, que fragmentam a madeira e criam galerias e túneis, favorecendo a sua colonização por microrganismos.

Há vida depois da morte
Durante o processo de decomposição, a árvore morta transforma-se num ‘condomínio’ muito procurado, com as espécies de habitantes a variar consoante o estágio de decomposição da madeira. Estima-se que, a nível mundial, entre 25 e 30% das espécies que vivem nas florestas dependam da madeira morta em algum momento da sua vida, quer seja para alimentação, hibernação ou nidificação. São os chamados organismos saproxílicos.
Em Portugal, a vaca-loura (Lucanus cervus), o maior escaravelho da Europa, alimenta-se de raízes mortas de carvalho-alvarinho (Quercus robur). Também o morcego-anão (Pipistrellus pipistrellus) usa as árvores mortas como abrigo. Já várias espécies de pica-paus alimentam-se de invertebrados que se desenvolvem sob a casca de madeira morta, e, ao perfurá-la, facilitam a sua decomposição.

Da terra para a terra
Enquanto se dá este corrupio de entra e sai, o processo de transformação, que pode durar de anos e até séculos, continua. À medida que a decomposição avança, parte do material resultante contribui para a matéria orgânica do solo, devolvendo elementos como azoto, fósforo e potássio ao ciclo de nutrientes, essencial para o crescimento das plantas.
A madeira morta também é um grande reservatório de carbono, que tem diferentes destinos durante a decomposição: uma parte é incorporada no solo e outra é libertada para a atmosfera, sobretudo sob forma de dióxido de carbono. A velocidade a que este CO2 é libertado depende de vários fatores, como temperatura, humidade, tamanho e estado de decomposição da madeira. No entanto, ainda não está quantificado o seu contributo para as emissões de gases com efeito de estufa e respetivo impacto no clima.

Restos (i)mortais
Em 2015, o Inventário Florestal Nacional (IFN) estimava a existência de 3,07 milhões de m³ de madeira morta em Portugal continental. Mas nem todos os despojos permanecem na floresta. O Instituto para a Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) recomenda manter as árvores mortas desde que não representem um risco para as árvores vivas (propagação de pragas e doenças) e para a segurança de pessoas e bens.
Também o risco de incêndio deve ser contabilizado. Há estudos que indicam que a madeira morta arde lentamente e não contribui de forma significativa para a intensidade dos fogos, embora partes mais pequenas, como ramos e agulhas secas, possam ser mais inflamáveis.
Durante muitos anos, uma árvore morta que permanecia na floresta era encarada como um resíduo, desperdício económico ou símbolo de má gestão. Hoje ela é integrada nas estratégias de gestão da biodiversidade e um dos indicadores do plano de restauro da natureza para os ecossistemas florestais. Foi o estudo do seu ‘corpo’, ao serviço da ciência, que permitiu compreender que, mesmo depois da sua morte, uma árvore continua a alimentar a vida nas nossas florestas.

Sabia que…
- A madeira morta também existe dentro de rios e ribeiros. Troncos e ramos podem alterar a estrutura física dos cursos de água e criar habitats para invertebrados e peixes.
- Uma árvore pode estar viva e morta ao mesmo tempo. Árvores muito antigas podem ter partes do tronco já ocas ou em decomposição enquanto continuam vivas e a crescer noutras zonas.
- Uma árvore morta pode permanecer na floresta durante séculos. O tempo, que pode variar entre 3 e 750 anos, depende da espécie, do clima, do tamanho e das condições locais.


