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“João Branco”: o encantador de serpentes

Ave de rapina da ordem Accipitriformes e da família Accipitridae, a águia-cobreira (Circaetus gallicus) faz jus ao nome que ostenta: é uma especialista na captura de répteis, sobretudo de serpentes.

Como seria de esperar, as cobras constituem a base da sua alimentação, embora também se delicie com lagartos e, ocasionalmente, com pequenos mamíferos. A sua anatomia está, inclusive, particularmente adaptada a este tipo de caça: as patas e as garras permitem-lhe capturar e transportar as presas, enquanto a cabeça e, especialmente, os olhos se encontram particularmente protegidos durante os ataques.

Não surpreende, por isso, que observar uma águia-cobreira a capturar uma cobra em pleno voo constitua um espetáculo verdadeiramente singular.

A ligação genealógica a Walter White

Digna de menção é, também, a sua tão curiosa quanto popular designação regional – “João Branco”. Um nome que, em algumas regiões, se tornou quase tão reconhecível como a própria ave.

Tem-se até conjeturado, jocosamente, uma eventual ligação familiar a Walter White, a célebre personagem da série “Breaking Bad”. Contudo, Vince Gilligan, o criador da série, nunca se pronunciou sobre o assunto, mantendo propositadamente o mistério por desvendar.

Tal como a alcunha sugere, uma das características mais marcantes da águia-cobreira é a tonalidade clara da sua plumagem. O peito e a face inferior das suas asas são geralmente muito claros, muitas vezes adornados com manchas castanhas. Esta coloração contrasta com a do seu dorso castanho e, na maioria dos adultos, com a cabeça mais escura.

A plumagem desta espécie apresenta, contudo, uma grande variabilidade. Enquanto alguns indivíduos são quase totalmente brancos nas partes inferiores, outros têm a cabeça mais escura e as asas mais densamente sarapintadas. Já os juvenis tendem, por sua vez, a apresentar a cabeça mais clara.

A águia-cobreira é uma ave de rapina de aparência robusta e algo desengonçada, com asas longas e largas, cauda e pescoço relativamente curtos e uma cabeça grande e conspícua. Os olhos, de tonalidade âmbar ou amarela, constituem outra característica distintiva da espécie. Quando está pousada, a sua face assemelha-se à de uma coruja e as patas parecem depiladas, visto não apresentarem penas.

Ressalva-se, ainda, que as fêmeas são, geralmente, maiores do que os machos.

Em voo, a águia-cobreira passa frequentemente longos períodos a planar em círculos, com as asas estendidas e relativamente planas. A ave é também conhecida pela capacidade de permanecer praticamente imóvel no ar, peneirando contra o vento enquanto procura almoço em terrenos abertos.

Por cá, adepta do Alentejo

A águia-cobreira ocorre de norte a sul de Portugal Continental, embora, de forma geral, seja mais comum no interior do que no litoral. Prefere zonas pouco habitadas, onde manchas de floresta, bosques ou matagais arborizados alternam com áreas abertas, como pastagens, montados e matos – ou seja, habitats que lhe oferecem simultaneamente locais adequados para nidificar e boas condições para caçar.

Pode ser encontrada em montados de sobro e azinho e outras áreas florestais, desde que existam os tais espaços abertos nas proximidades. Evita, por outro lado, extensas áreas de floresta contínua, zonas de pseudoestepes cerealíferas e áreas fortemente urbanizadas.

Em Portugal, nidifica sobretudo nas regiões do interior, com maior abundância nas serras algarvias, no Baixo Alentejo e na Beira Interior, mas também em Trás-os-Montes e no Alto Douro.

Os machos realizam voos acrobáticos e picados repetidos, acompanhados de vocalizações características para atrair as fêmeas e demarcar território.

Os casais são territoriais e constroem os ninhos no topo de pequenas e médias árvores, como sobreiros e azinheiras. Apesar do seu grande porte, esta espécie põe geralmente apenas um ovo por época reprodutiva.

A postura e incubação ocorrem geralmente entre abril e o início de junho. A incubação dura entre 35 e 40 dias e é assegurada quase exclusivamente pela fêmea, enquanto o macho caça e a alimenta.

Estamos também a falar de uma espécie com comportamentos migratórios: chega geralmente a Portugal em março e parte em setembro, deslocando-se para África, a sul do Saara, durante o inverno.

No ringue: “João Branco” vs. degradação do habitat

Apesar de a área de distribuição da espécie ter apresentado uma evolução positiva em algumas regiões, a águia-cobreira continua a enfrentar várias ameaças. Entre as principais encontram-se a destruição e degradação do habitat, nomeadamente através da degradação dos montados e da pressão agrícola.

Já a instalação de linhas aéreas de transporte de energia pode provocar eletrocussões, enquanto os parques eólicos representam um risco de colisão. A caça e o abate ilegais, bem como a perturbação e o roubo de ninhos, constituem também ameaças relevantes.

É por estes e outros motivos que, em Portugal, a águia-cobreira tem o estatuto de Quase Ameaçada (NT).

Sabia que…

– A origem da designação “João Branco” provavelmente está relacionada à aparência da ave. O termo “branco” será uma referência direta à sua plumagem muito clara, sobretudo nas partes inferiores do corpo. Já o “João” insere-se numa tradição popular de atribuir nomes próprios a determinadas aves. A designação pode  variar de região para região.

– Apesar de ser uma espécie sobretudo solitária, a águia-cobreira também pode formar concentrações excecionais de indivíduos, especialmente quando existe uma grande abundância de presas. Em Israel, por exemplo, foram observadas agregações com mais de 50 águias-cobreiras a alimentarem-se de roedores, um comportamento considerado pouco habitual para a espécie.

  • Águia-cobreira

    Circaetus gallicus

  • Animal

  • Género

    Circaetus

  • Família

    Accipitridae

  • HABITAT

    Ocorre sobretudo em zonas pouco habitadas, onde áreas florestais, bosques ou matagais arborizados alternam com espaços abertos, como pastagens, montados, matos e áreas agrícolas. Estes habitats oferecem-lhe, simultaneamente, locais adequados para nidificar e boas condições para caçar. Em Portugal, pode ser encontrada em montados de sobro e azinho e outras áreas florestais, desde que existam espaços abertos nas proximidades.

  • DISTRIBUIÇÃO

    Está presente de norte a sul de Portugal Continental, embora seja geralmente mais comum no interior do que no litoral. Nidifica sobretudo nas regiões do interior, com maior abundância nas serras algarvias, no Baixo Alentejo e na Beira Interior, mas também em Trás-os-Montes e no Alto Douro. É uma espécie migratória: chega habitualmente a Portugal em março e parte em setembro, deslocando-se para África, a sul do Saara, durante o inverno.

  • ESTADO DE CONSERVAÇÃO

    Quase Ameaçada (NT) em Portugal.

  • ALTURA / COMPRIMENTO

    A águia-cobreira apresenta um comprimento de cerca de 62 a 67 centímetros e uma envergadura que pode atingir aproximadamente 1,85 metros.

  • LONGEVIDADE

    Em média, vive cerca de 10 a 15 anos na natureza.

Como protegemos a espécie?

A águia-cobreira tem sido avistada em propriedades sob gestão da The Navigator Company em vários pontos do interior de Portugal, incluindo o Tejo Internacional, a Serra da Malcata, o Vale do Sado e o Sudoeste Português, sendo mais frequente nestas duas últimas regiões.

Embora não estejam identificados locais de nidificação dentro destas propriedades ou nas imediações delas, a espécie é ocasionalmente observada a sobrevoar a Quinta de São Francisco.

As medidas de conservação centram-se, por isso, na proteção e valorização do seu habitat, através da manutenção e melhoria de áreas de elevado interesse para a biodiversidade. O objetivo é garantir condições adequadas de alimentação, abrigo e reprodução, não só para a águia-cobreira, mas também para muitas outras espécies.

Quando há nidificação nas proximidades ou dentro das propriedades, são tomadas medidas como o ajustamento do calendário das operações aos ciclos biológicos das espécies e a implementação de buffers de proteção ao redor dos ninhos, evitando assim a perturbação durante o período crítico da reprodução.

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