Biohistórias

Ambiente

Pupilas: o que diz um olhar?

Presa ou predador? Não, não estamos a fazer referência a um reality show de sobrevivência nos confins do mundo, a uma música dos anos 80 e muito menos a uma entrevista a um animal selvagem. Conhecemos bem os olhares das personagens animais que povoaram a nossa infância e que assinalaram, desde logo, a perigosidade de uma espécie. Hoje, mais do que o ensinamento de uma fábula, é a biologia que nos explica se uma espécie nasceu para ser caçadora ou caça.

Quando observadas pelo ser humano, as pupilas de um animal podem projetar de imediato um cenário de perigo, desafio ou até misticismo. Uma junção de instinto de sobrevivência e herança evolutiva fez com que os nossos antepassados estivessem permanentemente em alerta, de olhos à espreita, prontos a reagir a qualquer movimento ou barulho ameaçador. Hoje, através da observação das pupilas, conseguimos saber muito sobre os animais: desde o seu modo de sobrevivência até ao nível de ameaça.

Num artigo anterior, falámos já em detalhe sobre a importância da visão como sentido-chave para garantir a sobrevivência das espécies no reino animal. Deixamo-lo aqui, à vista de todos, como introdução a este tema e para melhor compreender como ocorreu a evolução da visão.

Olhos nos olhos com caça e caçador

Comecemos pelo o enquadramento: diferentes tipos de animais apresentam diferentes pupilas; podem ter forma circular, com uma fenda vertical ou com uma fenda horizontal. Para quem está familiarizado com fotografia e com o processo do diafragma de uma câmara fotográfica, a inspiração para a sua funcionalidade virá, com certeza, do olho. A pupila controla luz que entra no olho: quando está muito escuro, expande-se e, quando há demasiada luz, contrai-se. Além disso, tal como uma câmara, a focagem é feita pelo ajuste/acomodação visual do cristalino (verdadeira lente) que foca a luz na retina (tecido sensível à luz), que gera as imagens no cérebro.

Através do estudo da evolução e da biologia, é possível separar o reino animal nestas duas categorias também pelos diferentes tipos de pupilas. Por exemplo, os animais com pupilas de fenda vertical, como algumas cobras, crocodilos, gatos ou , são considerados predadores e exímios planeadores de emboscadas: aguardam na calada de um esconderijo, observam a envolvência, captam a passagem de um espécime apelativo, planeiam e, só então, no momento certo, atacam a criatura indefesa.

Neste cenário, as fendas verticais são importantíssimas. Este tipo de pupila é típico de predadores noturnos, permitindo o fecho quase total durante o dia e uma grande dilatação rápida durante a noite, para captar mais luz. É típico de pequenos/médios predadores de emboscadas próximos do solo, como cobras, gatos e crocodilos.

Predadores altos ou de altitude (maior distância ao solo), como as aves, usam pupilas circulares; esta última permite maior deteção e acuidade a longas distâncias e a criação de imagens claras e menos distorcidas, em ambientes diurno.

As fendas horizontais são mais frequentes em animais considerados presas. Pensemos nos olhos de uma inocente cabra que se refastela nos campos, alimentando-se de plantas.

Assim, o formato das pupilas correlaciona-se diretamente com a estratégia de sobrevivência da espécie. Presas como as cabras, as vacas, os cavalos, as ovelhas ou os anfíbios, no geral, têm as pupilas num formato quase retangular, que lhes possibilita uma visão panorâmica do habitat envolvente. Se estiverem a comer ou a bebericar, estas espécies conseguem observar quase todo o ambiente à sua volta, sempre prontas a pôr-se em fuga caso um predador trace um plano de emboscada ou uma perseguição feroz esteja à vista.

Pupilas felinas

Os humanos caem na trivialidade de discutir as origens familiares. Tentam encontrar de onde vem a sua herança genética: quem herdou os olhos verdes do tetra-avô, quem conquistou os olhos rasgados da tia distante e porque ninguém reavivou a costela alemã com acesso a dois cristalinos e oceânicos globos oculares.

Os felinos selvagens, por sua vez, são bem mais práticos. Diferentes membros desta família apresentam, como referimos, diferentes pupilas e não se chateiam muito com isso, até porque jogam em diferentes campeonatos no jogo da caça. Mas, caso haja discussão, será majestosamente tida sob uma sombra de árvore, entre troncos, ramos, vegetação e solo: o conselho da família real.

Pupilas e o tamanho dos animais

Como já referimos, o tamanho dos animais influencia o tipo de pupilas com que nascem. Os nossos felinos domésticos nascem com pupilas verticais (e altamente julgadoras): instintivos, estão sempre prontos para lançar emboscadas a um rato de borracha.

No entanto, os felinos mais selvagens, vigorosos e volumosos da família Felidae, como o tigre, o leão, a pantera e a chita, por exemplo, apresentam pupilas circulares que favorecem uma abordagem mais direta na perseguição, sem grandes planeamentos.

Com efeito, estes são os míticos olhos que, com a pupila expandida, derretem o coração de qualquer ser humano ingénuo, como bem demonstra o Gato das Botas com o seu truque inimitável.

O mesmo acontece com os canídeos, grupo do qual fazem parte as raposas, os cães e os lobos. As raposas apresentam pupilas verticais, enquanto os cães e os lobos apresentam pupilas circulares.

Uma olhadela no charco

E pelos espaços onde outrora as fadas voavam e as ninfas se banhavam, encontramos outro género de evolução de pupilas: os anfíbios, na fase larvar, enquanto girinos, têm olhos com pupilas redondas, perfeitas para a adaptação ao meio aquático.

Mas, quando iniciam o seu processo de metamorfose, as pupilas assumem o formato oval: a córnea consegue adaptar a sua curvatura, enquanto a pálpebra superior é fixa e a inferior, transparente e móvel. Esta qualidade ocular resulta do facto de os Anuros, grupo diversificado de anfíbios carnívoros onde se enquadram as rãs e os sapos, dependerem totalmente da visão para se moverem e encontrarem alimento.

Pupilas postas no céu

E as aves? Por certo não ficam de fora da corrida. Se um adulto precisa de ver a pirâmide de letras no oftalmologista para tirar o brevê, qualquer espécie desta classe animal terá, forçosamente, de ter uma capacidade ocular excecional!

E assim é: imaginemos o voo taciturno e sombrio (felizmente, ecológico) de um condor, um abutre-do-novo-mundo, do latim Vultur gryphus. O seu voo depende totalmente de ajustes constantes, calculados a partir da informação que recolhe pela visão e que variam consoante a distância à fonte de alimento e ao nível de luminosidade.

Nas aves, o globo ocular é muito grande, enrijecido por um anel de ossículos escleróticos perto do cristalino, estrutura que lhes sustenta as variadas funções do dinamismo ocular. Os ossículos garantem também a forma esférica ocular, sobretudo em espécies com pupilas verticais.

O nosso condor, por exemplo, possui elevada acuidade visual, ou seja, vê muito bem: uma elevada percentagem da imagem é projetada na retina, que dispõe de um sistema complexo de cones e bastonetes. Quinze por cento do peso da sua cabeça pertence aos globos oculares. Uma visão a peso de ouro.

Leia também

Temas: