Fobias existem muitas. Há quem tema alturas, espaços fechados, aranhas. Embora algumas fobias possam parecer irracionais para quem as vê de fora, o medo é uma resposta muito mais complexa do que aparenta ser, uma vez que, na sua origem, se encontra um mecanismo essencial à sobrevivência: identificar uma possível ameaça e preparar o corpo para reagir.
15 de setembro de 2026
Durante milhares de anos, ter medo de uma cobra, de uma aranha venenosa, de uma queda ou de um local escuro podia constituir uma vantagem. Como tal, o nosso cérebro foi desenvolvendo mecanismos capazes de reagir celeremente a potenciais perigos, muitas vezes antes até de termos tempo para os analisar de forma racional.
E quando é a Natureza, em toda a sua força, que se torna assustadora?
O termo biofobia é utilizado para descrever o medo ou a simples aversão à Natureza. Do lado oposto da moeda está a biofilia, a crença de que os seres humanos têm uma tendência natural para procurar e apreciar o mundo natural – uma relação que poderá ter raízes na nossa própria evolução.
Durante grande parte da história da humanidade, o contacto com a Natureza fez parte do nosso quotidiano. Hoje, porém, uma parte crescente da população vive em cidades, passa grande parte do seu dia em espaços fechados e contacta com a Natureza, muitas vezes, através de ecrãs.
Para muitas crianças, experiências tão simples como brincar na terra, subir a uma árvore, observar um inseto ou tocar numa planta são cada vez menos frequentes, e aquilo que não conhecemos pode começar a parecer estranho ou, em última instância, ameaçador.
A falta de contacto com o mundo natural pode, assim, criar um ciclo: quanto menos conhecemos a Natureza, mais estranha ela nos parece; quanto mais estranha nos parece, mais tendemos a evitá-la; e quanto mais a evitamos, menos oportunidades temos de a conhecer.

Poderá um simples girassol ser fonte de desconforto?
É neste rico universo de medos e aversões que se encontra um dos fenómenos mais curiosos associados à Natureza: a tripofobia.
Embora atualmente não seja reconhecida como uma fobia diagnosticável pela comunidade científica, a tripofobia refere-se a uma forte aversão ou desconforto perante determinados padrões visuais repetitivos, especialmente conjuntos de pequenos buracos, protuberâncias ou formas geométricas muito próximas umas das outras.
Para algumas pessoas, observar estes padrões pode desencadear uma resposta física intensa, acompanhada de sintomas como suores, tremores, náuseas ou aumento do ritmo cardíaco.
E o mais curioso é que muitos dos padrões capazes de desencadear esta reação podem ser encontrados na Natureza: no centro de um girassol, nos favos de mel, na textura dos corais ou nos buracos formados pela erosão numa rocha junto ao mar.
A origem deste fenómeno ainda não é totalmente conhecida. Ao longo da nossa evolução enquanto espécie, reconhecer rapidamente determinados padrões poderá ter sido uma forma de evitar perigos. Consequentemente, uma das hipóteses sugere que o cérebro poderá associar determinados padrões a potenciais ameaças, como animais venenosos, insetos, vermes ou sinais de doença.
A explicação não é, contudo, consensual. A tripofobia continua a ser pouco estudada e os investigadores ainda não encontraram uma causa única capaz de explicar todas as reações associadas a este fenómeno.

A solução pode passar por conhecer de ginjeira.
A forma como reagimos ao medo ajuda a explicar porque é que nem sempre conseguimos simplesmente dizer a nós próprios “não há razão para ter medo” e, consequentemente, deixar de senti-lo.
O nosso cérebro pode desencadear uma resposta emocional extremamente rápida quando interpreta determinado estímulo como uma ameaça. É por isso que alguém pode, por exemplo, saber perfeitamente que uma cobra é inofensiva e, ainda assim, sentir o coração a acelerar ao vê-la.
O medo resulta de uma combinação complexa entre a nossa biologia, a evolução, as experiências que vivemos e a forma como aprendemos a interpretar o mundo.
A nossa relação com a Natureza é, também, moldada pela cultura e pelos meios de comunicação. Durante muito tempo, as florestas foram representadas como lugares misteriosos e perigosos. Hoje, filmes, notícias e conteúdos digitais continuam, muitas vezes, a apresentar uma Natureza associada a predadores, catástrofes e ameaças.
Ao mesmo tempo, as redes sociais mostram frequentemente uma Natureza filtrada e idealizada. Estamos, então, cada vez mais expostos a imagens do mundo natural, mas isso não significa que estejamos verdadeiramente em contacto com ele.

Até porque, ver não é sinónimo de conhecer
O conhecimento pode ajudar a substituir o medo pelo reconhecimento. Saber distinguir uma espécie, compreender o comportamento de um animal ou perceber o funcionamento de um ecossistema pode transformar algo que antes nos parecia estranho ou ameaçador em algo familiar.
O contacto é, como tal, importante. Explorar um espaço natural, observar uma planta, tocar na terra ou simplesmente passar tempo ao ar livre são experiências que ajudam a criar uma relação mais próxima com o mundo natural.
Porque, muitas vezes, aquilo que tememos não é necessariamente a Natureza, mas sim o desconhecido.
Este desconhecimento é evidente no nosso dia a dia: sobretudo nas cidades, muitas pessoas não sabem sequer identificar pelo nome as árvores, os arbustos, as aves ou outras espécies que vivem na sua rua, no parque ou no jardim mais próximo.
Conhecer melhor a Natureza que nos rodeia é, por isso, um primeiro passo para a compreender, valorizar e perder alguns dos receios que temos em relação a ela.
Continue a descobrir as espécies que partilham connosco o território e a aprender mais sobre a biodiversidade aqui.


