Imortalizados por Claude Monet, os nenúfares (Nymphaeaceae) transformam espelhos de água doce em autênticas paisagens vivas. Mas, para além do encanto visual, são peças-chave no equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.
11 de setembro de 2026
Imortalizados por Claude Monet, os nenúfares (Nymphaeaceae) transformam espelhos de água doce em autênticas paisagens vivas. Mas, para além do encanto visual, são peças-chave no equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.
11 de setembro de 2026
Há plantas que conquistam o mundo pela sua beleza. Os nenúfares fizeram-no duas vezes: primeiro, ao colonizarem lagos e charcos de água doce; depois, ao inspirarem algumas das pinturas mais famosas da História da Arte.
Os nenúfares pertencem à família Nymphaeaceae, um grupo de plantas aquáticas perenes de água doce, que agrupa cerca de 70 espécies distribuídas por 5 géneros.
Vivem enraizados no fundo de lagoas, albufeiras, açudes e zonas húmidas de águas calmas, enquanto as suas folhas, em forma de coração ou circular, flutuam, regra geral, à superfície, embora também possam ocorrer folhas submersas. Estas estão ligadas ao rizoma por longos pecíolos flexíveis.
Entre maio e setembro, surgem as flores, grandes e vistosas, geralmente brancas, amarelas ou rosadas, dependendo da espécie. São solitárias, bissexuais, radiais e geralmente flutuantes ou elevadas acima da superfície da água, com feixes vasculares.
Muitas abrem durante o dia e fecham ao anoitecer, acompanhando o ritmo da luz solar. Este movimento, conhecido como nictinastia, ajuda a proteger os órgãos reprodutores e favorece a polinização por insetos. Contudo, também pode ocorrer a autofertilização.

Em Portugal ocorrem naturalmente duas espécies de dois géneros, Nymphaea e Nuphar. O nenúfar-branco (Nymphaea alba), apelidado de golfão-branco, figo-de-rio ou boleira-branca, entre outros, é talvez o mais conhecido. De grandes flores brancas, entre 5 e 12 centímetros de diâmetro, ligeiramente aromáticas e hermafroditas, abrem durante o dia e fecham ao anoitecer, criando um espetáculo que se repete ao longo do verão.
As folhas largas e arredondadas flutuam à superfície, formando pequenas “ilhas” de sombra que servem de abrigo para peixes, anfíbios e inúmeros invertebrados aquáticos. São cerosas, verde-escuras na parte superior e avermelhadas no verso inferior.
As folhas inferiores encontram-se geralmente submersas. Prefere águas calmas e relativamente profundas, sendo frequentemente encontrado em lagoas, açudes e albufeiras bem conservadas.
Já o nenúfar-amarelo (Nuphar lutea subsp. luteum), conhecido como golfão-amarelo, figo-do-rio-amarelo ou boleira-amarela, é facilmente reconhecido pelas suas flores amarelas intensas e aromáticas, em forma de taça. As folhas em forma de um grande coração, de cor verde-escuro, emergem cerca de 30 centímetros acima da água, sustentadas por longos e separados pecíolos.
O fruto possui uma forma que varia entre ovóide e cónica, semelhante à de uma garrafa ou de uma pera, e flutua na água até libertar as pequenas sementes.

À primeira vista, os nenúfares parecem ocupar apenas espaço à superfície da água. Na realidade, estão a prestar vários serviços ecossistémicos em simultâneo.
As suas folhas funcionam como pequenos “guarda-sóis” naturais, reduzindo a incidência direta da luz solar sobre a água. Esta sombra ajuda a limitar o crescimento excessivo de algas, contribui para estabilizar a temperatura e favorece melhores condições para muitos organismos aquáticos.
Sob a superfície, os caules e rizomas oferecem abrigo a peixes, anfíbios, insetos aquáticos e inúmeros invertebrados. As flores, por sua vez, fornecem néctar e pólen a diversos insetos polinizadores, reforçando as ligações entre os ecossistemas terrestres e aquáticos.
Os nenúfares também participam nos ciclos de nutrientes e ajudam a melhorar a qualidade da água, absorvendo compostos dissolvidos e contribuindo para o equilíbrio biológico destes habitats.

Apesar de a área de distribuição da espécie ter apresentado uma evolução positiva em algumas regiões, a águia-cobreira continua a enfrentar várias ameaças. Entre as principais encontram-se a destruição e degradação do habitat, nomeadamente através da degradação dos montados e da pressão agrícola.
Já a instalação de linhas aéreas de transporte de energia pode provocar eletrocussões, enquanto os parques eólicos representam um risco de colisão. A caça e o abate ilegais, bem como a perturbação e o roubo de ninhos, constituem também ameaças relevantes.
É por estes e outros motivos que, em Portugal, a águia-cobreira tem o estatuto de Quase Ameaçada (NT).

Para além da importância ecológica e ornamental, os nenúfares também têm sido estudados pelas suas possíveis aplicações medicinais. Às diferentes espécies são atribuídos efeitos como ação antiespasmódica, adstringente, cardiotónica, emoliente, hipotensora e analgésica, entre outros.
Algumas destas utilizações estão associadas às flores que contêm efeitos sedativos, podendo atuar sobre o sistema nervoso, e anafrodisíacos. Por esse motivo, estas plantas foram utilizadas na medicina tradicional em situações de insónias, ansiedade e outros estados de agitação.
Mais recentemente, a investigação científica tem procurado compreender o potencial terapêutico do nenúfar-amarelo, sobretudo devido à diversidade de compostos bioativos que contém. Entre estes destacam-se vários alcaloides que parecem interferir em mecanismos de morte celular programada, uma característica que tem despertado interesse no estudo de possíveis aplicações futuras em doenças como o cancro e algumas doenças neurodegenerativas, nomeadamente Alzheimer e Parkinson.
Claude Monet passou décadas a pintar os nenúfares do jardim da sua casa em Giverny, norte de França, transformando-os num dos maiores símbolos da pintura impressionista. Curiosamente, aquilo que fascinava o artista continua hoje a fascinar os ecólogos: a capacidade destas plantas de criarem paisagens dinâmicas, onde luz, água e biodiversidade coexistem em equilíbrio.
Da próxima vez que observar um nenúfar a flutuar tranquilamente num lago, lembre-se de que está perante muito mais do que uma flor elegante. Está a olhar para uma pequena engenheira dos ecossistemas aquáticos, que refresca a água, cria abrigo para inúmeras espécies e ajuda a manter o delicado equilíbrio da vida doce aquícola.
Porque, na Natureza, algumas das obras-primas mais importantes não estão penduradas num museu, continuam vivas, a florescer todos os verões.

• Os nenúfares são um porto seguro para rãs, sapos e outros animais, servindo de suporte para permanecerem à superfície da água por algum tempo.
• Todos os nenúfares são venenosos e contêm um alcaloide chamado nufarina em quase todas as suas partes, com exceção das sementes e, em algumas espécies, dos tubérculos. Ainda assim, durante séculos, foram aproveitados como recurso alimentar. Em diferentes regiões do mundo, alguns povos utilizavam os seus rizomas e sementes para produzir farinhas com elevado teor de amido e proteína. As sementes podiam ainda ser torradas, funcionando como alternativa ao café, ou cozidas até adquirirem uma textura estaladiça semelhante à de uma “pipoca” (Kershaw).
• Os antigos egípcios utilizavam os nenúfares do Nilo como símbolos culturais. Foram encontrados restos de nenúfares-azuis do Egito (N. caerulea) e de nenúfares-brancos (N. lotus) no túmulo de Ramessés II.
Nymphaeales
Nymphaea alba (Nenúfar-branco) e Nuphar lutea (Nenúfar-amarelo)
Nymphaeaceae
Águas calmas, pouco profundas, como lagos, lagoas e pântanos.
Regiões tropicais e temperadas de todo o mundo.
Pouco preocupante de acordo com IUCN Red List.
Perene