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Sacarrabos: conheça o “rato dos faraós”

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Com uma surpreendente pegada histórica, os sacarrabos (Herpestes ichneumon) são personagens figurantes em contos de faraós e terão acompanhado os árabes e romanos em muitas das suas jornadas. Este mamífero carnívoro pode ser encontrado de norte (ainda que ocorra em menor abudância) a sul de Portugal, distinguindo-se pela sua velocidade e caráter oportunista. Conheça melhor a espécie que ficou conhecida como “o rato dos faraós” e que pode ser encontrada, entre outros locais, na Herdade do Zambujo.

No entanto, na Antiguidade, os artifícios ao dispor eram bem mais reduzidos, pelo que ter um sacarrabos podia fazer efetivamente toda a diferença, nomeadamente para atacar ratos e cobras, ou destruir ovos de crocodilo. Que o digam os faraós e os árabes, cuja história se cruza com a desta espécie, que pode ser encontrada maioritariamente a sul da Península Ibérica.

Ao jeito de um “exterminador implacável” – expressão que nos remete à mítica personagem de Arnold Schwarzenegger –, o sacarrabos revela-se verdadeiramente letal para animais que ameaçam as culturas e para as cobras. Não obstante, este animal tem por hábito caçar a espécie mais presente no habitat onde se encontra, sendo que além dos animais já mencionados e de coelhos, pode também alimentar-se de aves, répteis, ovos e cogumelos, entre outros. Por outro lado, o sacarrabos passa de predador a presa quando encontra animais de maior porte, como por exemplo o lobo, o lince-ibérico e as aves de rapina.

É possível encontrar representações do sacarrabos no Antigo Egito e no período romano, em esculturas e pinturas, bem como uma associação do animal à luta do Bem contra o Mal. O sacarrabos é, assim, igualmente um símbolo de coragem e resistência, tal como na lenda de “David e Golias”, ao ter a capacidade de enfrentar ameaças, sobretudo cobras, teoricamente mais fortes e maiores do que ele.

Veloz e furioso: a natureza do sacarrabos

O sacarrabos é uma das 15 espécies de mamíferos carnívoros que ocorre em Portugal e evidencia-se pela sua rapidez de ação (pode atingir até 32 km/h). A sua estratégia de caça incide sobretudo no facto de apanhar os seus alvos de surpresa: esta espécie tem a capacidade de explorar áreas subterrâneas, invadindo tocas de mamíferos ou desenterrando anfíbios, mas pode perseguir presas à superfície. Além de ser um animal escavador, pode ainda caçar em grupo, sendo uma das suas estratégias, neste caso, rodear a presa, para que esta não consiga escapar. O facto de possuir uma pupila horizontal é também uma vantagem, já que lhe permite ter uma visão panorâmica do ambiente que o envolve.

A origem do animal em Portugal não é consensual. Acreditava-se que o sacarrabos tinha sido introduzido no nosso país pelos árabes, durante a ocupação, mas um artigo de 2010 veio colocar várias questões e enfraquecer esta ideia. Um estudo do Museu de História Natural de Paris aponta para uma possível colonização natural, na sequência da passagem através do estreito de Gibraltar. Tal teria acontecido no final do Plistocénico (há 11,7 mil – 126 mil anos), ainda que o Journal of Archaeological Science aponte para o registo fóssil mais antigo encontrado, que remonta ao século IX e é coincidente com uma datação feita em Espanha (entre os séculos XI e XIII).

Quanto ao ambiente, os sacarrabos preferem os habitats que apresentam maior cobertura vegetal, com oliveiras, medronheiros e estevas, entre outros. Mais caraterística das zonas de montado, a espécie pode surgir noutras que sejam ricas em vegetação arbustiva ou, no caso de regiões de cultivo, opta por ficar perto dos cursos de água ou das silvas. É um animal tradicionalmente diurno e recebeu o seu nome, curioso, por causa do seu comportamento: uma fêmea, quando segue com a ninhada, desloca-se normalmente em fila indiana com as crias a tocar com o focinho na cauda do elemento que a antecede. Esta espécie também pode ser conhecida por outros nomes, como rato-do-egipto, manguço ou escalavardo.

Uma espécie “viajante”

Se há largos séculos o sacarrabos se estendeu além do continente africano, também em Portugal continental viveu as suas “aventuras”. Mais associado à região sul do país, ao Alentejo e Algarve, deslocou-se há cerca de três décadas, nos anos 90, para áreas mais a Norte, provavelmente devido ao abandono de terrenos agrícolas e à desertificação de algumas áreas. Como tal, é já natural encontrar esta espécie em localidades do Norte e do Centro.

Nas propriedades geridas pela The Navigator Company, pode ser observado em mais de 75 propriedades da empresa, inclusivamente no Zambujo, propriedade em restauro ecológico desde 2022, promovendo a maior ocorrência desta e de outras espécies de carnívoros.

Estranho para algumas pessoas, por não ser um animal muito conhecido, marca a diferença por apresentar caraterísticas distintas de outros animais de dimensões idênticas. O focinho é afunilado e o nariz, escuro, não tem pelos. Relativamente à cor da pelagem do corpo, tem uma mistura de pelos castanhos-claros e outros muito escuros; já a ponta costuma ser em tons cinzentos-claros. Em termos de comprimento, pode atingir até um metro de comprimento, na soma entre o corpo (50 a 55 centímetros, em média) e a cauda (entre 33 e 45 centímetros).

Quanto ao acasalamento, é habitual que aconteça durante a primavera, sendo que o sacarrabos tem, por norma, uma ninhada anualmente, composta por duas a quatro crias. Por sua vez, a gestação dura menos de três meses (84 dias), com o nascimento a acontecer nos meses de julho e agosto. Em adulto, pesa entre dois e quatro quilogramas e, em média, vive de 12 a 20 anos, caso sobreviva a doenças e às ameaças do seu meio.

Embora tipicamente selvagem, o sacarrabos continua a ser “domesticado” por algumas civilizações, nomeadamente no Norte de África. Dessa forma, o seu instinto natural é usado para proteger sobretudo terrenos agrícolas.

Sabia que…

  • O sacarrabos é nativo das regiões costeiras entre o norte de África e a Turquia, ao largo do Mediterrâneo. A sua introdução na Península Ibérica permanece um mistério.
  • Este animal pode optar por um esconderijo natural, por exemplo uma fenda numa rocha, ou ocupar uma toca abandonada. Além disso, pode também cavar a sua própria toca.
  • A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) enquadra esta espécie como ”Pouco Preocupante” (LC) na Lista Vermelha.
  • O sacarrabos sabe nadar bem e pode recorrer à água para escapar a um predador, assim como para “brincar.”
  • Por norma, arqueiam o dorso e ficam com o pelo eriçado quando se encontram numa situação de ameaça ou excitação.
  • Sacarrabos

    Herpestes ichneumon

  • Mamífero

  • Género

    Herpestes

  • Família

    Herpestidae

  • Habitat

    Espécie mediterrânica, escolhe sobretudo o montado como principal habitat, também ocorrendo em matos e matagais, desde que estes apresentem arbustos. Ocorrem ainda nas orlas das galerias ripícolas e em zonas húmidas com boa densidade vegetativa. Escolha áreas abertas para escavar as suas tocas.

  • Distribuição

    Em Portugal ocorre principalmente a sul, especialmente nas zonas do Alentejo e do Algarve, embora comece a constatar-se uma expansão para norte.

  • Estado de Conservação

    “Pouco Preocupante” (LC) segundo a Livro Vermelho dos Mamíferos.

  • Altura / comprimento

    Pode atingir até um metro de comprimento total (46 a 54 centímetros de comprimento corporal e 36 a 45 centímetros de cauda) e pesar entre 2 a 3,7 quilos.

  • Longevidade

    Até aos 20 anos em cativeiro.

Sacarrabos: conheça o “rato dos faraós”

Como protegemos a espécie?

O sacarrabos ocorre em mais de 75 propriedades geridas pela The Navigator Company de norte e a sul do país – do Mogadouro à Malcata, descendo até Gois, à Charneca do Tejo e ao Vale do Sado, a Monchique e ao Sudoeste Alentejano. Versátil, o sacarrabos adapta-se aonde quer que encontre alimento.

Apesar de a espécie não necessitar de medidas especiais de proteção e o seu estatuto de conservação ser “Pouco Preocupante” (LC) no nosso país, ao serem identificadas ninhadas é definida uma zona nessa área, evitando-se as operações florestais que causem perturbações.

 

O projeto “Zambujo reCover – Projeto de requalificação florestal e proteção de solos” visa a implementação de uma ação de restauro ecológico numa área de 153 hectares, através da rearborização com espécies autóctones, com os objetivos de promover conservação de solos e a melhoria de habitats protegidos.

A intervenção decorre no Zambujo, uma propriedade florestal situada no concelho de Idanha-a-Nova, em pleno Parque Natural do Tejo Internacional e na Zona de Proteção Especial do Tejo Internacional, Erges e Pônsul, área classificada como Rede Natura 2000.

Promovida pela The Navigator Company em parceria com o RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel, a iniciativa tem um orçamento global de 225 774,79 euros e é financiada pelo Programa COMPETE 2020 no âmbito da medida “Apoio à transição climática/Resiliência dos territórios face ao risco: Combate à desertificação através da rearborização e de ações que promovam o aumento da fixação de carbono e de nutrientes no solo” (REACT-EU/FEDER).

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