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Conservação

Identificar habitats e espécies nas florestas Navigator

A identificação de novos habitats e espécies nas florestas Navigator tem vindo a ampliar-se ano-após-ano, graças ao Programa Anual de Monitorização implementado. Saiba como é feito este trabalho que, até 2022, já permitiu identificar mais de 240 espécies de fauna e de 800 espécies e subespécies de flora, além de múltiplos habitats prioritários para a conservação.

Na impossibilidade de perscrutar todo o território à procura dos animais e plantas que por lá se encontram, a identificação de habitats e espécies nas florestas Navigator é feita por amostragem, técnica comum à maioria dos estudos e levantamentos sobre biodiversidade e espécies ameaçadas, como as Listas Vermelhas ou Livros Vermelhos.

Nos cerca de 105 mil hectares de floresta da empresa em Portugal, a primeira etapa do Programa de Monitorização começa com a definição das áreas de amostragem, ou seja, das áreas que têm maior potencial em termos de valores naturais e que são, por isso, prioritárias para a amostragem anual.

Para selecionar estas áreas, é feita uma avaliação dos seus valores naturais com base em mapas de ocupação de solo. As áreas de vegetação natural são, à partida, as elegíveis e maior prioridade é dada às zonas florestais da Navigator que estão integradas no Sistema Nacional de Áreas Classificadas (como as da Rede Natura 2000, por exemplo), e a outras áreas onde estejam identificados (ou existam potencialmente) habitats protegidos, espécies de fauna ameaçadas ou espécies de flora RELAPE – Raras, Endémicas, Localizadas, Ameaçadas ou em Perigo de Extinção.

A avaliação das áreas de amostragem, com a identificação dos valores naturais nelas presentes, é a etapa seguinte. O trabalho de campo é desenvolvido por parceiros externos – equipas de investigadores ou empresas especializadas -, segundo o método de Avaliação Rápida de Biodiversidade (ARB), abordagem reconhecida pelas Convenções para a Diversidade Biológica (CDB) das Nações Unidas e RAMSAR por gerar resultados fiáveis e úteis para a conservação ecológica em áreas vastas e num período de tempo relativamente curto.

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Levantamentos para identificação de habitats, fauna e flora

 

Em campo, o trabalho desenvolve-se através de levantamentos específicos de fauna, comunidades vegetais (flora) e habitats:

  • Fauna

São criados pontos de observação e escuta, e procede-se à busca ativa de animais ou de indícios da sua presença, desde tocas e ninhos a dejetos. Há que saber reconhecer estes indícios, que variam consoante o grupo de animais e entre espécies da mesma família. Vejamos um exemplo: “Apesar de ser relativamente comum em Portugal, a coruja-das-torres (Tyto alba) é uma rapina noturna que nem sempre se deixa ver, mas por vezes identificamo-la pelos seus regurgitamentos. Elas regurgitam os restos das suas presas – pelagens, ossos e penas – que não dirigem”, elucida o responsável pela conservação da biodiversidade na The Navigator Company, Nuno Rico. Mas várias rapinas regurgitam e para saber a que espécie pertence a regurgitação é preciso reconhecê-la, o que pode ser feito através de elementos como o tamanho, cor, rugosidade e consistência.

Assim, para cada grupo de fauna é aplicada metodologia própria e são usados vários equipamentos e abordagens que apoiam a observação e identificação de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e até peixes. As câmaras fotográficas ativadas por calor e movimento – fotoarmadilhagem – são amplamente usadas, mas são apenas um exemplo, neste caso usado para os mamíferos.

  • Flora e vegetação natural

Avalia-se o estado de conservação das diferentes manchas de vegetação natural, bosques, matos, prados ou galerias ribeirinhas dentro da área de amostragem. São estabelecidas as áreas de maior interesse para estudo, em função das suas características fitossociológicas (características, classificação, relações e distribuição). Começam depois a ser feitos os inventários florísticos, ou melhor fitossociológicos, pois incluem a abundância, dominância e associações das espécies de flora, assim como a identificação e descrição das comunidades vegetais (e não apenas a lista das plantas presentes).

Foi durante este trabalho, no Parque das Serras do Porto, que uma equipa da Floradata, empresa envolvida na monitorização dos valores naturais nos espaços florestais geridos pela Navigator, descobriu um exemplar da Cheirolophus uliginosus, uma planta pouco conhecida e “Quase Ameaçada” em Portugal. Na zona de Penamacor, foi encontrada em 2022 uma outra espécie, a Rhaponticum exaltatum, que se encontrava descrita apenas no nordeste transmontano – na Zona Especial de Conservação de Montesinho/Nogueira – e é considerada “Criticamente em Perigo”.

“A identificação de plantas e até de árvores nem sempre é fácil, porque há muitas espécies, subespécies e híbridos que resultam de cruzamentos. Algumas são tão semelhantes morfologicamente que é difícil distingui-las em campo. Por vezes, é preciso recolher amostras ou fotografias com detalhe para podermos observá-las, compará-las com a literatura científica e pedir a ajuda de especialistas nessa espécie”, explica Nuno Rico.

  • Habitats

São avaliados os habitats classificados na Diretiva Habitats, independentemente se estão dentro ou fora dos limites das Zonas Especiais de Conservação da Rede Natura 2000. Procede-se à avaliação do seu estado de conservação, resultante do somatório de influências que atuam sobre ele e as suas espécies características, e que podem afetar a sua distribuição natural, estrutura, funções e sobrevivência a longo prazo.

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Como é usada esta informação na Navigator?

 

Os dados recolhidos no decorrer destes procedimentos resultam em relatórios e na caracterização mapeada (georreferenciação) e documentada das diferentes zonas com interesse para a conservação, das suas necessidades e prioridades diferenciadas, e na descrição da biodiversidade, ao nível de espécie, que está presente nestas áreas.

Quer isto dizer que os dados recolhidos são transformados em informação que apoia as decisões relacionadas com o planeamento e a gestão florestal e da biodiversidade. “Isto incide diretamente na conservação da biodiversidade nos espaços florestais geridas pela Navigator, mas também noutros recursos naturais relevantes, como, por exemplo, os cursos de água e charcos que, além de importantes enquanto habitat, geram outros importantes serviços do ecossistema” –, esclarece Nuno Rico.

Integrada no Sistema de Informação Geográfica da Navigator, esta informação permite, assim, distinguir:

  • As diferentes categorias das zonas com interesse para a conservação;
  • A localização e informação sobre os habitats classificados pela Rede Natura 2000 que foram identificados, o seu estado de conservação e as suas espécies bioindicadoras;
  • Os pontos de avistamento das espécies endémicas e ameaçadas, e a presença das várias espécies em cada propriedade.

As avaliações permitem também conhecer zonas sensíveis, como locais de reprodução de espécies (a não perturbação é aqui essencial ao sucesso reprodutivo) e áreas com presença de espécies protegidas ou ameaçadas. Nestes casos, as atividades silvícolas tradicionais, incluindo a mobilização de terras ou a passagem de máquinas florestais, serão interditas ou condicionadas, para que não exerçam impactes negativos sobre a natureza.

É, assim, com esta informação, que são definidos os locais que a The Navigator Company constitui como Zonas de Conservação, Áreas de Proteção ou Áreas de Alto Valor de Conservação, que já totalizam mais de 12 mil hectares. Com este conhecimento são também delineadas as estratégias de conservação, proteção, mitigação ou restauro mais adequadas a cada zona. E tal como a natureza é dinâmica, também esta informação o é, porque vai sendo complementada e ajustada à luz de reavaliações regulares, no âmbito do Plano Anual de Monitorização da empresa.

A cartografia e informação produzidas ficam disponíveis aos departamentos que vão projetar, implementar e gerir os projetos de silvicultura no terreno, para que possam desenvolver a avaliação prévia de condicionantes técnico-ambientais e sociais.

Os profissionais destas áreas têm formação sobre valores naturais e biodiversidade para que mais facilmente possam atuar em consonância com a estratégia de conservação da biodiversidade da empresa. Como alguns destes profissionais passam grande parte do seu tempo em campo, também eles acabam por se deparar com espécies ainda não avistadas, que registam, apoiando a inventariação.

outubro 2022

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